Tão admiravel e triumphante era a belleza de Clotilde, como doce, modesta, soffredora, era a apparencia de Angelina. D'este contraste que a todos os olhos se impunha, resultavam sempre grandes alegrias de amor proprio para a elegante herdeira.

Angelina tinha pois uma dupla missão, inteiramente passiva. Fazer sobresahir a bondade de Clotilde e a sua formosura.


Quando Clotilde conheceu mais de perto aquelle que seu pae lhe promettera muito brevemente para esposo, comprehendeu logo, com a rara perspicacia que a distinguia, que o que na sua pessoa havia de mais brilhante e admirado pouca ou nenhuma influencia exerceria no coração d'elle.

Uma noite em que a filha do conselheiro Magalhães estivera mais rodeada de admirações lorpas e de cultos banaes, em que, ebria d'esse grosseiro incenso das salas, ella exhibira todas as suas raras e distinctas prendas de mulher bonita e de mulher garrida, ousou sorrindo perguntar a Gastão, que mais d'uma vez a tinha olhado com mal disfarçada ironia:

—Não me dirá qual é o seu ideal de mulher? Vejo-o sempre tão reservadamente cortez com todas as senhoras, que ainda não percebi o que é preciso ser para lhe agradar.

—Meu Deus! não ha nada mais facil—respondeu o moço fictando o olhar limpido e honesto no altivo olhar de Clotilde.—É preciso ser uma mulher em quem ninguem repare.

—Julguei que a mediocridade o não captivava a esse ponto—volveu Clotilde mordendo os beiços de colera.

—Mas é que não é ser mediocre ser modesta. É que a mulher que gosta de brilhar, não sabe o que é sacrificio e abnegação, é que para mim todos os encantos que se apreciam nas salas, não valem um bom e candido coração que saiba amar-me e viver só para mim.

Não se póde dizer que Clotilde adorava Gastão, mas emfim a verdade é que gostava muito d'elle. Achava-o superior, correcto, distincto, d'uma aristocracia innata que a encantava.