—Recuso, respondeu ella docemente, e uma côr viva tingiu-lhe as faces.

Recuso por muitas razões. Em primeiro lugar é um pouco extranho dançar quando se tem a posição que eu tenho, porque emfim eu não sou mais que uma dame de compagnie, uma aia, uma governante ou como queiram chamar-me, de casa dos meus caridosos parentes.—Ao dizer isto, talvez involuntariamente, na voz de Angelina havia umas inflexões de amargura resignada.

—Depois—continuou—não danço porque me faria mal. Dóe-me muito o peito!

Gastão sentiu dentro d'alma como que a brotar subitamente, um sentimento que lhe era desconhecido e em que havia dó, tristeza, admiração, um enternecimento sem nome que lhe embargava a voz.

Angelina era tão delgada, tão fragil, d'uma physionomia tão delicadamente melancolica!

Para tudo a fizera o destino, menos para combater e para luctar. A desgraça despedaçara-a sem que ella tentasse resistir-lhe sequer.

Como seria doce protegel-a, guial-a na vida, abrigal-a no peito contra os embates hostis da adversidade!

Era assim que Gastão havia sonhado uma adoravel e submissa mulherzinha, com aquelle olhar largo e limpido que lembrava um lago da Suissa, com aquelles louros cabellos ondados emmoldurando uma testa setinosa e côr de marfim.

Trocaram mais duas ou tres palavras, e depois separaram-se de novo. Angelina talvez ficasse a scismar, que nunca mais teria occasião de ver postos nos seus uns olhos onde se lesse tão doce e tão honesta sympathia.