Os serões animava-os com a sua presença, com a sua voz, com a sua mestria musical, com os seus conhecimentos variados adquiridos nas viagens e nas leituras.
Angelina voluntariamente occulta no canto mais escuro da sala, assistia a todo este jogo brilhantissimo com a silenciosa resignação de quem se sente para sempre expulsa de todos os prazeres da vida.
Nem sequer percebia que era para o lugar em que ella trabalhava, que os olhos de Gastão se dirigiam constantemente, e que elle tão desdenhoso e tão ironico para com as outras, lhe fallava sempre timidamente, respeitosamente, como os devotos fallam com o seu Deus, como as mães fallam com os seus filhos doentes.
Houve um dia em que uma resposta quasi insolente de Clotilde a fez padecer muito.
Arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, levantou-se e foi encostar-se á varanda toda enredada de trepadeiras que dava sobre o jardim.
Não percebeu que a crueldade de Clotilde significava um despeito, um ciume, talvez uma agonia profunda de amor proprio! Pensou sómente que a herdeira rica e poderosa insultava diante da sua familia, diante do seu noivo, a orphã desamparada, e chamou baixinho por sua mãe, pedindo lhe que a levasse comsigo para o ceu.
Então uma voz grave, sonora e viril, a voz d'um homem de coração e de coragem, murmurou perto d'ella:
—Quer ser minha mulher, Angelina? Ha muitos dias que tenho vontade de fazer-lhe esta pergunta e não me atrevia!
É que se me recusar, juro-lhe que me dá um desgosto muito grande! Não faz idéa! Parece-me que a conheço desde que nasci, que nunca vi outra mulher, que nunca achei possivel ter outra esposa... Talvez não creia... mas olhe... hei de fazel-a muito feliz... hei de amal-a com uma devoção tão profunda...
Angelina não o deixou concluir. Tapou-lhe a bocca com uma das suas mãos diaphanas, e pallida, a tremer, deixou-lhe cahir a cabeça sobre o peito a soluçar..............................