LXVI.
Aqui passo tal vez a mais quererte,
Onde chego mais fino a mais lembrarme,
Porque foraõ distancias de naõ verte
Incentivos quiçà para olvidarme:
Mas nem topo motivos de perderte
Nesses teus infalliveis de deixarme,
Que, sendo vida minha, sò pudera
Por perdida julgarte, se eu morrera.
LXVII.
Assim se queixa Pedro, quando ausente
Daquellas prendas nunca esquecidas,
Pois amor, que lembradas as consente,
As pintou bellas, quando as vio perdidas;
Quando nas pennas, que dobradas sente,
Quando nas queixas, que repete unidas,
Jà desmayando pasma, porque ordena
A mesma queixa, que se calle a penna.
LXVIII.
Qual o Lyrio gentil nas mãos da tarde,
Quando fragoas se alenta, incendios gyra,
Funesta tumba de seu mesmo alarde,
Bebendo rayos, abrazado espira:
O que roxo matìz a pennas arde,
Parda nuvem murchando se retira,
Em quanto a Aurora tarda, q̃ de hum rayo
Lhe corre galas para novo ensayo.
LXIX.
Assim Pedro se pasma, e naõ consente
Os sentidos queyxumes, que derrama,
Que se vive queixoso quem mais sente;
Poem limite nas queixas quẽ mais ama;
Mas aqui lhe concede amor presente
Aquellas prendas, com que mais o inflãma,
Que saõ talvez motivos do socego
As memorias gentis do doce emprego.
LXX.
Agora, humanas prendas, se entendidas
O desdem desprezais da infausta sorte,
Que naõ duraõ taõ pouco vossas vidas,
Que naõ saibaõ passar àlem da morte:
Attentay, se notardes advertidas,
Que naquelle de amor rigor mais forte
Aconteceo da misera, e mesquinha,
Que depois de ser morta foy Rainha.