A mãe puxou-o para fóra, porque não queria que o mestre ouvisse o que ella tinha que dizer ao filho.

Vergonhas não se querem assoalhadas.

Olhou para o rapaz, e a voz prendeu-se-lhe na garganta. Tinha pejo, mas por fim decidiu-se. Ella bem queria lidar como as outras mulheres, que a bem dizer fazem por toda a ilha o dobro do trabalho dos homens, mas não podia, por causa d’aquella mão aleijada.

Já não sabia com que cara apparecesse ás visinhas. Tinham todas muita pena d’ella, é verdade, ajudavam-a a viver, mas ás vezes, por muita vontade que tivessem, tambem não podiam. Só Deus sabe das faltas, que cada um padece!

Pedir aos ricos, nem pensar n’isso... Quem nunca soube o que é não ter, menos acode aos que precisam.

E vae d’ahi lembrou-se, custando-lhe muito, de vir pedir alguma coisinha ao filho.

O Antonio bem queria fazer-lhe a vontade, mas como? A féria d’aquella semana já estava gasta n’um fato, que tinha ajustado dias antes, e por signal bem barato. O mestre João não queria ver em casa maltrapilhos, não tanto por si, mas por ’môr dos freguezes. Á sua loja iam os senhores mais ricos da villa.

—Não pódes então dar-me nada? perguntou a Maria José, com os olhos rasos de lagrimas.

—Posso, sim senhora, mas é tão pouco... A minha mãe bem sabe que se muito tivesse... Porque estou eu aqui? Para mais a míudo lhe poder fazer bem, e para ir vel-a de vez em quando. Mas um dia pego em mim e abalo n’uma d’essas baleeiras!

—Lá isso não, filho, só se queres matar-me! Bom de lei és tu. Excusas de m’o dizer! Saes todo a teu pae. Ah! Que se aquelle Caim do Gaspar Dutra não m’o tivesse matado!... Coitadinho! Ainda estou a vel-o a arquejar, com a cara toda suja de sangue—parecia um bicho!—os olhos já envidraçados a fincarem-se em mim ... como a querer falar, mas sem poder! Era para me dizer quem o tinha atirado do alto da rocha.