—Tu estás parvo! bradou-lhe o mestre, do outro lado da loja, sem largar a cara, que já tinha meio rapada.
O aprendiz poz machinalmente mais sabão na barba do freguez.
—És da Candelária? continuou este. Conheces lá muita gente?
—Conheço... Conheço a Maria José, viuva do Manoel Luiz... O senhor conhece-a?
E os olhos, que se fitavam no fio da navalha virado para a garganta do Gaspar, levantaram-se n’uma interrogação anciosa.
—Olá se conheço! E tambem conheci o marido... Um grande marau!
O Antonio teve um espasmo. Os nervos contrahiram-se-lhe medonhamente, e o gume do aço cortou bem fundo no pescoço bronzeado do assassino, abrindo uma ferida alongada, de onde o sangue espadanou com violencia.
O Gaspar ainda ergueu os braços, soltou um arranco, estrebuxou e caíu de lado, no chão. Na toalha, presa por baixo da barba, o sangue formava uma larga mancha vermelha, que se foi extendendo a mais e mais.
João Cardoso e o outro homem, extaticos, boquiabertos, transidos de pavor, não ousavam approximar-se. Por fim, em quanto o freguez corria para a porta a gritar «Aqui d’el-rei!», o mestre, vendo a navalha caída no chão, chegou-se ao pequeno, que estava de parte, todo a tremer, e a olhar com espanto para aquella massa enorme agitada pelas convulsões da agonia.
Agarrou-o por um braço e perguntou-lhe: