—A benção de Deus seja n’esta casa! disse o vigario e depois de fazer uma venia á coroa, foi sentar-se na cadeira de balouço, que o João Furtado fizera promptamente desoccupar em obsequio a sua reverendissima.
Mas o desejo do bom do padre, era que as danças continuassem.
Antes de ir para o seminario de Angra, e até quando vinha de lá passar as ferias com a familia, elle não perdia uma unica folga.
Estes divertimentos attrahiam-o ainda, como tudo o que nos traz para diante dos olhos já queimados pelas lagrimas da desillusão, os dias luminosos da mocidade.
Ia recomeçar a chama-rita.
Á pergunta do estylo, que os antigos pares lhes faziam sobre o nome do escolhido para a nova dança, as raparigas em geral responderam, tambem segundo o estylo vulgar «O senhor mesmo!», com grave escandalo dos outros rapazes, que assim continuavam a ser na festa uns meros espectadores, e que se desforraram com o conhecido protesto:
—Caras novas ao terreiro!
A Maria não imitou o maior numero. Como ouvisse o João Terra dizer que já não tinha pernas para folias, e não desejando fazer-lhe desfeita, escolheu o filho d’elle—o Ricardinho. O José ficou embaçado, sem poder mexer-se, e calado como se lhe tivessem amarrado uma mordaça.
Só o tio deu por isto, e para evitar alguma asneira, travou-lhe do braço e disse-lhe em voz baixa, terminantemente:
—Anda commigo, diabo!—E como sentisse alguma resistencia, accrescentou com maior intimativa:—Se não vieres, dou-te na cara, aqui mesmo, deante de todo este povo!