—Isso! Isso mesmo! Como se a fogueira inda precisasse de mais lenha!...

E chegou-se para a porta da casa, apparentando indifferença.

A dança animou-se mais, com o crescente enthusiasmo em que estava o Ricardinho. Mal este gritou: «Cadeia!», as mulheres levaram o braço esquerdo atraz das costas, á altura da cintura, e os homens deram-lhes as mãos, indo as direitas de cada par enlaçadas na frente, como no galope, e as esquerdas n’aquella posição. Será bom dizer que mais de uma rapariga se tinha prevenido para o caso, resguardando as costas do vestido no sitio provavel do contacto, por meio de um lenço pregado com alfinetes. Os pares, assim unidos, avançaram para o centro e recuaram, passando cada homem á dama que lhe ficava logo á direita, para com ella executar isto mesmo, e assim successivamente, até encontrar-se de novo com a que lhe pertencia.

Umas das senhoras da cidade, a Annina Mesquita, bem conhecida pelo seu romantismo piegas, cantou com uma voz, que, em homenagem á verdade, deveria chamar-se de canna rachada:

Encostei-me ao pecegueiro,

Cobri-me toda de flôr,

Ai de mim tão pequenina

Tão perseguida de amôr!

Mas por um pouco não deixava a quadra incompleta, porque estrondearam perto, contendendo-lhe com os nervos, duas bombas, deitadas da janella pelo João Furtado, para solemnisar o acabamento da ceia dos foliões. Estes saíram á formiga, deixando a bandeira, o tambor e os pandeiros, e levando comsigo, embrulhadas n’um lenço, as opas e os sapatos. Dois tinham de ir para longe, e com similhantes trambolhos nos pés, arriscavam-se a ficar pelo caminho.

Á «cadeia» seguiu-se a marca «Foge!» equivalente á grande-chaine, mas principiada com a mão direita, e fazendo os homens um movimento analogo ao balancé.