O frade saiu d’alli cambaleando, estonteado. Por milagre chegou á sua cella, sem cahir ao comprido, sobre as lages do corredor.
Mal fechou a porta, atirou-se de bruços para cima do catre, e mordeu a coberta de lã grosseira, n’um paroxismo louco, abafando os gritos que lhe irrompiam do peito em catadupa.
Depois, foi a pouco e pouco serenando, as lagrimas correram-lhe dos olhos em fio, e o franciscano esteve tempo infinito, de joelhos no chão, com os olhos erguidos para o alto, mal fitando atravez do caudal do choro a imagem de um Christo, que estendia lamentoso os braços sobre o madeiro da Cruz, n’uma attitude de immensa angustia resignada.
E assaltou-lhe a memoria a recordação de uma dôr egual, a da perda da sua mãe, que morrera assim, de repente, estando a falar com elle. Dôr egual, não! que maior que todas é a de perder-se a mulher amada.
E elle idolatrava-a com tão immaculado culto, que nem a vista da donzella profanára aquelle amor. Só agora, declarada a medonha catastrophe, só depois que o guardião dissera que Beatriz tinha morrido, frei Antonio percebeu o que eram aquelles extasis, aquelles arroubamentos ineffaveis, de quando via, ao longo dos caminhos ou na egreja, a figura gentil e fascinante da morgadinha. Ás vezes, quando surprehendia no peito o intenso tumultuar da paixão, illudia-se, rebuscava na memoria passagens dos livros santos e acreditava que ascetas teriam tido como elle, e mais do que elle ainda, o indizivel goso de antever em vida apparições como essa, mensageiros de Deus destinados a fazer-nos crêr nos archanjos e seraphins.
Mas este mysticismo acabava perante a nova fatal. Não! O anjo era-o, mas da terra! Morto, desfolhado aquelle lyrio de fragrancia extrema: impossivel, impossivel!...
Saiu da portaria do convento quasi a correr, e como lá fóra, pelo campo matisado de flores, o sol esparzia ondas de luz, e nas carvalheiras os melros trinavam alegremente, soltou-se-lhe do peito um longo suspiro de satisfação e o rosto coloriu-se-lhe de prazer. Se Beatriz houvesse morrido, o sol ter-se-hia apagado e os passaros nunca mais soltariam os seus gorgeios.
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Quando chegou a casa do morgado, as trevas encheram-lhe de novo a alma. Ao fundo do pateo, n’um quarto baixo, avistou, apenas acabava de empurrar a porta da rua, que estava entreaberta, um grupo de mulheres erguendo as mãos ao ceo, e soluçando muito.
Subiu a escada de pedra, passou o alpendre, e logo na grande sala da habitação fidalga encontrou o pobre pae e viu no rosto afogueado do velho a verdade inteira.