A Lampreia

O jardim, que cingia a casa de Lili, era dividido em grandes quadrilateros, por alamedas de camelias arborescentes. Na primavera, as plantas dos canteiros cobriam-se d’um luxuoso manto diversamente matisado, e nas comas das roseiras do Japão os canarios e toutinegras davam, desde a madrugada até ao entardecer, concertos infernaes.

Foi n’uma das alamedas que vi a pequenina pela primeira vez. Sentada n’um banco, parecia indifferente aos esplendores que a cercavam, e só tratava de segurar de encontro ao peito um grande gato branco, enlançando-o com os braços por baixo das pernas deanteiras. O animal supportava pachorrentamente aquella posição, incommoda na apparencia, e tinha o resto do corpo no collo da creança, com o grande ventre, forrado de pello macio, pendente n’uma dobra flacida, e os olhos piscos, ante o brilho intenso de um raio de sol, que, perfurando a folhagem, vinha pôr uma nodoa clara no peito de Lili.

Esta, quando o pae, o meu amigo Fernando lhe disse quem eu era, apenas me concedeu um breve olhar obliquo, e estendeu com pouca vontade a face ao beijo que lhe dei. De improviso o gato, ou porque sentisse mais forte o abraço, ou porque se assustasse com a presença de um estranho, escapou-se-lhe das mãos por um movimento rapido, e, depois de longo espreguiçamento, foi enroscar-se voluptuosamente sobre um monte de folhas seccas, em que o sol batia de chapa.

A pequenina rompeu n’um grande choro, e mostrou ao pae um dedinho rosado, onde começavam a gotejar alguns rubis de sangue.

—Um ache, papá; o Moleque fez-me um ache!

Fernando ia applicar ao gato um severo correctivo com uma varinha que tinha na mão, porém Lili, adivinhando-lhe as intenções, chupou rapidamente o sangue, e disse muito alegre:

—Olhe, papá, não foi nada. Já passou!

Assim é que ella gostava do gato branco.

N’um domingo, Fernando convidou-me para jantar. Festejava-se a chegada, a S. Miguel, de um nosso amigo commum. Andavamos os tres a passeiar pelo jardim e praticando uma soffrivel devastação nas camelias, eis que ao passarmos em frente da sala de jantar, situada no rez do chão, fomos detidos pelo dono da casa, que nos fez signal para que olhassemos lá para dentro, atravez da porta de vidraça.