--Sou, pois, infallivelmente condemnado, não é verdade?!... Um pedido então, senhora, e será o ultimo... Deixe-me ir batalhar pela nação... V. Exc.a já não carece dos meus serviços... tem a companhia d'aquella martyr, e d'aquelle respeitabilissimo ancião... Vou para junto do meu camarada Arthur... talvez que precise do meu auxilio, e juro-lhe que darei por elle a vida... Consente, não é assim?... Não me responde?!... Chora?!... Compadeça-se de mim, senhora, e deixe-me partir!...
Usando dos privilegios concedidos a todos os narradores, vamos agora lêr a carta, que o padre Alvaro acaba de escrever:
«Exc.ma Snr.a D. Maria da Gloria, escolhida filha do bondoso Deus:
«Não ha flôres por mais mimosas que a natureza as produzisse, que estejam ao abrigo das tempestades da terra; e por muito açoitadas e pendidas que ellas fiquem, o sopro de um Deus, mais poderoso do que o furacão da tormenta, em breve as alevanta e reanima. A minha linda flôr da Gloria, está sendo abalada pelos ventos do infortunio, com que o pae celeste costuma experimentar os seus escolhidos; mas, se como eu espero e creio, a christã resignação fôr uma das muitas virtudes de V. Exc.a, não virá longe o dia em que hade ser compensada dos seus dolorosos soffrimentos. Tambem eu sei carpir saudades do meu unico e verdadeiro amigo, que nunca julguei que me houvesse de preceder na viagem da eternidade!... Ora, pois, enchuguemos o justificado pranto, e fallemos um pouco de nós outros, interinos habitadores d'este valle de lagrimas.
«Venho da cabeceira do leito de Arthur, que está livre de todo o perigo: mais alguns dias de repouso, e a seiva da vida apparecerá de novo. Foram muito graves os ferimentos, perigosos mesmo: deixaram vestigios permanentes, que mudaram immenso a physionomia do meu caro Arthur. Perdôe a este velho padre o dizer-lhe, que o rapaz me pareceu assim mais formoso ainda!... Eu, que devo impugnar os ardores guerreiros, como indignos da caridade e da misericordia do Senhor, achei bello aquelle aspecto marcial!... Na hora das despedidas, sahiu-lhe espontaneamente da bocca o nome de V. Exc.a, proferido com igual respeito áquelle com que por vezes invocára o da sua querida mãe. Quizera responder-lhe com poucas palavras, mas foi impossivel. A despedida, durou mais tempo do que o resto da visita!... O padre, teve de ceder o seu logar ao homem, que, apesar de criminoso, é pae!... Que lhe direi mais, senhora D. Maria da Gloria?!... Arthur está preparado para todos os acontecimentos... Resignar-se-ha com tudo, afóra a ideia de que V. Exc.a possa ser menos feliz do que merece.
«Peço a transmissão dos meus profundissimos respeitos á exc.ma snr.a D. Isabel, á qual me atrevo a rogar o seu regresso a estes sitios, onde me será mais facil a realisação do desejo de as vêr todos os dias, e acompanhal-as nas orações pelo eterno descanço do nosso chorado esposo, pae e amigo.
Padre Alvaro.»
N'este mesmo dia, existiam só, além dos serventes, duas pessoas na residencia do padre Alvaro: elle, e a senhora que vimos orar, em quanto o padre escrevera e João e Rosa conversavam.
João de Lencastre, fôra o primeiro a retirar-se, com a morte no coração, porque de todo lhe fugira a esperança de ser correspondido no seu immenso amor.
Rosa, que o não prevenira da sua resolução, seguira-o pouco depois.