--Por um escudeiro!... Vergonha eterna!... Juro que a vingança ha de ser superior á affronta... Não posso medir-me comtigo, villão, mas quero e hei-de vingar-me... Vingar-me de todos... Ouviram?! De todos!... E a ti, canalha... escudeiro infame... hei de afogar-te como se afoga um cão vadio!...

Proferidas aquellas selvagens ameaças, retirou-se o possesso, a passos accelerados, não dando assim logar a maior castigo.

João Vidal, com toda a submissão e respeito, pediu á sua joven senhora desculpa para o que fizera sem premeditação, e levado unicamente pela violencia do insulto. D. Maria agradeceu-lhe com palavras vehementes, e ordenou-lhe que entregasse o punhal ao snr. Arthur Soares, o que o escudeiro fez, sem exitação, pedindo depois licença para retirar-se.

Arthur, surprezo com a ordem e a entrega, perguntou a D. Maria, que uso devia fazer d'aquella arma.

--Guarde-a--lhe disse a fidalga--até que eu lh'a peça.

--É perigoso este instrumento na minha mão, senhora, desde que me vejo causa involuntaria das mágoas de V. Exc.a... Esta noite foi para mim ao mesmo tempo a vida e a morte... Tive sempre horror ao crime, e vejo-me levado pelo destino a ser necessariamente criminoso! Acolhendo em meu peito sentimentos, que nem ao dominio dos meus sonhos quereria que pertencessem, terei de luctar e de punir, de caminhar para a incerta felicidade por cima do cadaver de um inimigo, vilissimo é verdade, mas bem nascido e poderoso... O que devo fazer em tão apertada como temivel conjunctura?!... Não devo escolher entre dous crimes, aquelle de que só eu venha a soffrer as fataes consequencias?!... Nunca me persuadi de que havia de chegar uma hora em que assim fosse abalada a minha austeridade em principios religiosos!... Nunca imaginei que seria forçado a praticar, o que sempre tenho rebatido com todas as forças de uma profunda convicção!... Adeus, snr.a D. Maria da Gloria!... Amanhã será entregue a V. Exc.a esta arma por pessoa de confiança.... Peço-lhe que ao recebel-a se lembre com alguma saudade do martyr de umas certas crenças, talvez irrisorias n'esta epocha de... progressos... Adeus!...

--Ordeno-lhe que fique!... Disse D. Maria com um tal assento de voz, que obrigou Arthur a ficar como petrificado.

--O snr. Arthur Soares, pensar em suicidar-se?!... Onde escondeu a fortaleza do seu espirito robustecido pelo estudo?! Como assim esqueceu os salutares conselhos de sua boa mãe, que o snr. Soares muitas vezes me tem repetido?! Que fez das arreigadas crenças na religião de nossos paes, que o snr. Arthur dizia ser a mais racional e acceitavel de todas as religiões, mesmo desprendida do que n'ella ha de mysterioso e divino?!... Ah! snr. Arthur Soares, que me parece imperdoavel essa allucinação!... Já não quero fallar-lhe no abandono em que deixava as pessoas amigas, só pelo egoismo de não soffrer na lucta! Isso prova que as melhores almas tambem têem suas fraquezas... Lembre-se, senhor, que á vida de V. S.a póde estar presa alguma outra vida; e que, querendo fugir a matar um inimigo vil, quando seja absolutamente indispensavel o fazel-o, póde assassinar alguem com o seu suicidio...

--Pois V. Exc.a?!!...

--Adeus, snr. Arthur Soares! Durma tranquillo e guarde bem essa arma que deve ser entregue por V. S.a em pessoa a mim, ou, de minha ordem, á minha amiga e discipula Rosa...