Alvaro, era presbytero!

VI
CELIBATO

«Deus me livre de discutir materia tantas vezes disputada, tantas vezes exhaurida pelos que sabem a sciencia do mundo, e pelos que sabem a sciencia do céu!»

Alex. Herc.--Eurico.

O padre Alvaro, foi residir, em companhia de seus paes, para a terra da sua naturalidade, onde cumpria rigorosamente todos os deveres de seu ministerio sagrado, procurando os infelizes para os consolar com a palavra e com a esmola, fazendo colheita de lagrimas, e escondendo de todos as que lhe vertia o coração. Vivia só para a caridade e para a dôr. Decorando, no Evangelho, a vida de Christo, identificou-se com Elle no amor da humanidade. Conseguiu augmentar ao casebre do seu patrimonio um novo e separado repartimento, na solidão do qual, fóra das horas obrigadas aos seus deveres, fechava cuidadosamente as suas mágoas.

O soffrimento de um filho, não póde ser, por muito tempo, estranho aos que lhe deram a vida. Os bondosos lavradores de Esporões, conheceram, mais por instincto do que por sagacidade, que seu filho padecia, e quizeram profundar a causa de suas tristezas. Espreitaram-no a horas mortas, e ficaram surprezos do que viram.

--Que peregrinação será aquella do nosso querido Alvaro, em noites de tempestade, Maria?!--Perguntava o velho a sua esposa, ambos de volta de suas pesquizas.

--Eu sei-te lá, homem! Só te digo, que isto tudo me faz chorar... Elle come quasi nada, anda tanto por esses montes e outeiros, vae pelas cabanas á cata dos necessitados, passa o pouco tempo que lhe resta de dia a lêr e a escrever, e ainda sahe de noite e com um tempo assim!... Deus me perdôe, mas quer-me parecer que o nosso filho se fez padre de mais!

--Não ha gosto perfeito n'esta vida, é certo. O prazer com que lhe ouvimos a primeira missa, farta recompensa de todos os nossos sacrificios, desandou, dentro em pouco, n'estas lagrimas! Mas deixa estar, que eu ainda tenho vigor, e não canço nas minhas pesquizas, que podem trazer-nos tranquillidade. D'aqui por deante, quero ser eu só a vigiar o nosso Alvaro, porque fico mais á minha vontade. Tu, entretanto, ficas na cama a pedir a Deus por nós, sim?

--O que tu queres, quero eu sempre, Antonio.