--Vou dizer-lhe tudo por uma vez, snr. Antonio, antes que as forças me faltem... Amo seu filho e sou amada por elle... Um padre e uma viuva!... Deus castiga-nos, e bem o tinha agourado o meu confessor... Elle, está cavando a sepultura, bem o vejo; e eu quero, e hei de morrer antes...

--Em quanto viverem os velhos como eu, não podem morrer assim depressa os novos como vossas mercês, descancem... Mas porque não fallaram a tempo?! Porque não confiaram de mim esses incuraveis amores, quando fossem ainda horas de os legitimar aos olhos do mundo?...

--Não o quiz eu, snr. Antonio, porque tive mêdo de ajuntar ao meu crime o seu odio, ou de praticar novo crime, levando Alvaro á desobediencia.

--Foram bons sentimentos esses, foram; mas fôra melhor que ambos tivessem mais alguma confiança nos corações dos outros... Em fim, isso lá vae, e o que não tem remedio remediado está. Agora, cumpre fazermos todos da nossa parte para se viver o melhor possivel, o que se hade conseguir com o favor de Deus...

A este tempo sentiu-se rumor á porta do quarto, e ouviu-se distinctamente a voz de Thereza dizer: «É seu pae!...»

--Entra, Alvaro;--disse em voz clara e de modo a ser ouvido de fóra, o sympathico e honrado velho. Entrou o padre, ajoelhou aos pés do pae, e titubeou a palavra:--Perdão.

--Levanta-te, que és mais infeliz do que culpado, e para os infelizes reservou Deus a sua divina misericordia. Sei tudo, e tambem o sabe tua mãe. Não te louvamos nem condemnamos; choramos as tuas dôres, que são as nossas, e procuramos-lhe allivio. É preciso que vivas, e que viva tambem a snr.a Eugenia. Eu mando, pela voz da religião que tenho n'alma, pela do sangue e pela da honra, como a entendem os homens do campo. Se fôr condemnado pelos fanaticos, já tenho a absolvição do meu santo pastor, que mais vale. A um pobre, que sempre foi honrado, não falta a Providencia nas occasiões precisas. Tu, meu Alvaro, vaes ser nomeado reitor da freguezia de Santo Adrião de Penafiel, que assim m'o prometteu o snr. fidalgo de Porto Carreiro, que nunca faltou á sua palavra. É um presente que me faz, disse elle, por eu lhe ter pago com toda a pontualidade, ha quarenta e cinco annos, um fôro, de dois carros e meio de pão meiado, limpo e sêcco. É um fidalgo ás direitas, que sabe conhecer o que vale o suor da pobreza. Ora, a reitoria, fica lá para o valle de Sousa, nas proximidades de Penafiel, muito longe d'aqui. Eu e tua mãe de certo lá não poderemos ir; mas tu, que estás na força da vida, virás amiudadas vezes visitar-nos. O snr. padre reitor de Santo Adrião, tem na aldeia da sua naturalidade uma irmã viuva, que póde ter um filhinho que talvez precise do auxilio do thio padre... Repito, eu mando, e quero ser obedecido. Não sei o que dizem os livros sagrados nem os profanos, porque me não ensinaram a lêr: tenho só aprendido o que me diz a minha consciencia honrada. No tribunal do Deus justo, darei eu as contas por tudo isto. Do escandalo, é que as não hei-de dar, porque tenho toda a segurança nos bons sentimentos d'aquelles que preferiam a morte, á quebra publica dos seus deveres.

Quando Antonio acabou de insinuar as suas ordens, dadas n'um tom prophetico e inspirado, é que fez reparo no quadro que, havia já minutos, alli se via. Estavam a seus pés, ajoelhados, cada um de seu lado, regando-lh'os de lagrimas doces, os amnistiados da paternidade, que representa Deus na terra.

Era bello de vêr-se a mocidade cadaverica pelo mal d'amor, abraçando commovida até ás lagrimas, a honra envelhecida no rude trabalho do campo, fresca e vigorosa como a carvalheira secular liberta da podridão das cidades!...

No dia 27 de agosto de 1819, recebia o primeiro sacramento da egreja, na cidade de Braga, um recem-nascido do sexo masculino, a que foi posto o nome de Arthur. Os padrinhos, por procurações de Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello e de D. Isabel de Abendanho e Sousa, foram Antonio da Cunha e Maria do Espirito Santo, os honestos lavradores de Esporões, que deram a existencia ao reitor de Santo Adrião de Penafiel.