Á mesma hora, passeava Arthur Soares, como louco, no seu quarto, brandindo um punhal, aquella detestavel arma, já conhecida do leitor, que D. Maria lhe legára.
[2] Verdadeiro ou imitado, mostrava Mac-Donnell ás pessoas mais importantes do partido realista, um escripto do punho do snr. D. Miguel de Bragança.
[3] É notavel a linguagem d'esta proclamação: «Portuenses!--O general *** volta de novo com a força de seu commando a aproximar-se das linhas do Porto. Elle não confia em si. Confia na traição. Mas engana-se. A junta está prevenida. Ninguem ousará dentro dos muros do Porto levantar um grito criminoso, fazer uma tentativa culpada. Ninguem o ousará. E ai d'aquelle que o ousasse! As medidas convenientes estão tomadas. Porto! A Europa nos contempla! Com a ajuda de Deus, pela intercessão da Virgem, protectora de nossas armas e de nossa gloria, o Porto será sempre vencedor--nunca vencido. A liberdade nos inspira! Os escravos que vem trazer os ferros, e a assolação a esta cidade ficarão petrificados deante de nossas bayonetas. O Porto é a cabeça de Medusa deante da qual os tyrannos estremecem e gelam de terror.
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«Confiemos na protecção do eterno, e no esforço de nossos braços. Transmittamos á posteridade uma nova pagina de heroismo--a nossos netos uma rica herança de gloria, e um grande e novo exemplo de valor. Ás armas cidadãos! Ás armas! por Deus, e pela liberdade: e--Viva o Porto!--O Porto sempre grande, sempre intrepido, sempre heroico, indomito, invencivel!--Viva a Nação!--Viva a Liberdade!--E ás armas!--Palacio da junta provisoria do supremo governo do reino, em 8 de Dezembro de 1846.»
(Omittimos tudo que podesse recordar odios pessoaes.)
VIII
COMBATE
«O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava involto na sua gloria sem corar das angustias d'aquelles, que em seu ridiculo orgulho se chamavam monarchas e conquistadores do mundo; sem lhe importar se os vermes vestidos de ferro, chamados guerreiros, se despedaçavam uns aos outros com o delirio insensato das viboras no momento dos seus amorosos ardores.»
(A. Herculano--Eurico.)
Em Porto Manso, logar situado pouco abaixo das Caldas de Arego, no dia 19 de Novembro de 1846--o seguinte áquelle das scenas descriptas no capitulo precedente--estavam postados á margem do rio Douro, em fortes posições, uns quinhentos homens commandados pelo aventureiro general Mac-Donnell, espreitando a passagem rio abaixo de um bravo, mutilado e honradissimo militar do tempo do cêrco, que servia ás ordens da junta, e que recolhia, com a força de seu commando, á invicta cidade do Porto.