No rosto de Arthur Soares, ao reconhecer Rosa, havia transparecido um raio de alegria, que foi de novo sumido nas trevas da sua profunda tristeza, mal que terminára a narrativa.
--Esta, já está salva! e hade ser o primeiro mobil da salvação das outras nossas filhas, Isabel!--Disse Sebastião da Mesquita, cheio do jubilo que em taes circumstancias podia abrigar no peito.
IX
AMOR
«Amor é a palavra, o brado eterno
Solto por Deus ao vêr já feito o mundo,
Que fez tremer as abobodas do inferno
E o sol ficou da côr d'um moribundo:
A primavera, estio, outomno, inverno,
Terra, céu, alma pura, bicho immundo,
Tudo ahi cabe á larga de tal modo
Que n'essa concha Deus se fecha todo.»
(João de Deus--Flores do campo.)
Á margem de uma estrada que serve de transito entre Vianna e a praça de Valença no alto Minho, em aprasivel e pittoresca posição, olhando as viçosas e celebradas cercanias do nosso poetico Lima,--está situado um sumptuoso palacio com suas suberbas fachadas das ordens Toscana e Dorica, esta decorando a frente principal, e aquella a do primeiro jardim, como tambem as suas respectivas torres ou pavilhões.
A escada principal d'este edificio, rivalisa com a do palacio episcopal da cidade do Porto.
A capella ostenta um elegante zimborio e grande profuzão de maravilhosos ornatos. Os seus aprasiveis parques e bellissimos jardins, com magnificas e espaçosas ruas, tornam aquella vivenda verdadeiramente encantadora. O interior corresponde ao exterior, se não o excede, na vastidão, luxo, e boa ordem com que está decorado.[4]
Fôra para aquelle paraiso, que o sr. Leopoldo de Lencastre fizera conduzir D. Maria e a sua discipula Anna, conservando-as separadas, ignorando a existencia ali uma da outra, e na maior vigilancia, para evitar outra fuga como a de Rosa.
Viviam as duas donzellas n'aquelle privado carcere rodeadas do mais asiatico luxo, e como feudaes princezas a que, no exilio, fosse concedido o eden por homenagem.