--Continua a ser cruel, senhora, e eu submisso sempre! Vê como o amor torna os homens bons e generosos? Qual de nós é o captivo?...

--Infame!...

--Sempre esse burguez adjectivo! E porque sou eu infame?! Pois se o amor governa o mundo, podem-se por ventura impor deveres aos impulsos da alma?!... Solte a minha nobre prima uma palavra de esperança, e verá transtornado em manso cordeiro aquelle que imaginou ser um feroz tigre... O sentimento verdadeiramente moral que me domina, é sincero e augusto... Nasceu subitamente e nem por isso é possivel a sua cura... Conheço, desde que a avalio, toda a grandeza, todo o poder, toda a irresistivel força dos seus naturaes encantos, toda a magnitude da sua nobilissima alma... Amo-a e soffro muito, minha prima, tendo para mim este sofrimento na conta do maior prazer!... Adoro-a até no seu despreso por mim!...

--Infame!...

--É muito, senhora!... Não será prudencia abusar d'esse modo de uma paixão que deve conhecer verdadeira, e que é capaz das maiores virtudes como dos mais negros crimes... A par d'esta loucura que faz escorregar para o mais medonho precipicio, ou que nos salva d'elle, todas as differentes paixões da vida são uns simples brinquedos... Fechado na sua formosa mão, tem a minha nobre prima o meu destino e o de todos os seus... Até lá está tambem o esquecimento para dous homens que me fizeram ultrages, que só o amor tem o poder de perdoar... Abra essa mão, senhora, que em abril-a desponta-lhe a felicidade... Serei um escravo humilde da sua mais caprichosa opinião... Domarei todos os instinctos, todos os appetites, todas as tendencias que possam ir de encontro aos seus desejos... Somos ambos poderosos, somos fidalgos, somos parentes... A nossa união não póde ter obstaculos legaes e, que os tivéra, todos eu saberia dissipar pela força d'este amor que é a minha vida, ou que hade ser a minha morte... Quer sahir d'esta casa? Quer levar em sua companhia as suas discipulas? Quer um cortejo de princeza para acompanhal-a, em que eu serei o ultimo de seus servos?... Pois basta, para tudo isto se fazer immediatamente, que a minha nobre prima me dê uma simples palavra, uma singela esperança...

--Infame!...

--Oh! que é de mais!...

N'esta altura da entrevista, e quando talvez Leopoldo estivesse para ceder á violencia da sua paixão atrozmente insultada pelo sangue frio da nossa heroina, sentiram-se palmas cadenciadas, e tres vezes repetidas, na proxima ante-sala. Ao ouvir aquelle signal, de certo convencionado por elle, retirou-se precipitadamente o infeliz capitão, o senhor d'aquella casa, e por sem duvida o mais infeliz dos seus habitadores.

O chamamento fôra a communicar-lhe a urgencia de acudir a Vianna, para recolher com toda a força militar ao Castello, d'onde o commandante resolvera resistir a numerosas forças do exercito da junta do Porto, que se aproximavam, e do povo, que se reunia para as coadjuvar. Recebida a ordem, quasi com indifferença, voltou Leopoldo á presença de D. Maria, para lhe dizer com voz pausada e debil:

--Senhora!... Retiro-me por algum tempo d'esta casa, na qual V. Exc.a fica substituindo o meu poder. Conservo as ordens dadas aos meus criados, e servos de V. Exc.a para a guardarem com profundo respeito, mas altero-as ordenando-lhes, que não resistam a qualquer força que tente libertar a minha nobre prima... É possivel que seja esta a ultima vez em que a minha presença lhe provoque esse invencivel tédio... Este malvado, que podia ter colhido com novas violencias os fructos a que pareceu mirar pela primeira imprudencia, pede-lhe o seu perdão com lagrimas de sincero arrependimento...