--Dizes pouco, mas sempre bem. É o resultado de quem pensa o que diz. O favor que me fazes de tua senhora, é que eu não queria receber. Chamai-me só D. Maria, já que não quereis habituar-vos a um tratamento mais intimo, e proprio das nossas idades, como eu appetecia.

--Era o que faltava! As rainhas bem amigas são das damas do paço, e mais estas ajoelham-se para beijarem a mão de sua real ama...

--Invejo-te a verbosidade e o talento, querida Rosa... Has-de chegar a muito se fôres bem fadada por Deus.

--Vês, Rosinha, minha vassalla, que o mal da inveja tambem toca nas almas como a da nossa Annitas!?

--Aquillo, senhora, não é inveja, é mostrar que pensa o que diz... mas é muito de crêr que nem sempre diga o que pensa...

--Com a tua pessoa, em jogo de bons ditos, minha doutora, não ha partido... Olhai!... Se não são visões do crepusculo, o que eu diviso, é muita gente reunida na serra de Guilhufe!...

--É muito povo, é, snr.a D. Maria! Responderam, a uma voz, surprehendidas, as duas amigas da fidalga.

--É caso extraordinario! A esta hora, e n'um dia de serviço!... Ahi vem o sobrinho do snr. reitor, que nos vai dizer o que significa aquelle ajuntamento...

Interrogado, o recem-vindo, pelas tres donzellas ao mesmo tempo, respondeu,--precedendo um cumprimento de cabeça, por lhe não darem logar a outro--é... a «Maria da Fonte!»

[1] Na Historia da casa de Lara, e n'um manuscripto, de 1676, do padre Manoel da Purificação Magalhães, vê-se escripto==Avendanho==; mas os modernos senhores do nome, assignam-se--Abendanho. A nobre familia dos Abendanhos, veiu para Portugal no tempo de El-Rei D. Diniz. O seu brasão compõe-se de cotta d'armas de prata, em campo azul, trespassada por tres setas manchadas de sangue, com a legenda: Sine sanguine non est victoria.