Effectivamente, o senhor de Valneige não tinha nem febre nem insomnias; estava pallido{256} e fraco, mas seu filho dava-lhe pouco a pouco forças e vida. Aconselhavam-lhe viajar e já tinham começado os preparativos da partida. Entretanto os amigos antigos e os jovens camaradas divertiam os espiritos e favoreciam as expansões.

Christiano e seus irmãos lembravam-se d'aquelle jantar, em que Adalberto teria sido o decimo quarto, e comparavam a alegria presente á inquietação que então pesava sobre todos.

Sim, Adalberto teria sido o decimo quarto; mas agora estavam quinze á meza.

Ao pé de Camilla estava uma criança tão bonita como abatida, cujo olhar doce e meigo dizia ainda, nos intervallos d'uma tosse fortissima:

—É talvez a morte que vem, e depois o céo.

Era Tilly, a amiguinha de Adalberto.

A senhora de Valneige tinha ouvido as confissões de Gella; o que esta rapariga não teria dito á justiça tinha-o dito á amizade. Tilly era realmente uma criança roubada, e roubada desde muito nova, n'um passeio publico. Não tinham nenhum conhecimento da sua familia, estava perdida para sempre, e este sempre não podia durar muito. O peito delicado d'esta amavel criancinha tinha sido desprezado. Os medicos consultados tinham dito: «Sem esperança!»

E o senhor e a senhora de Valneige tinham respondido: «Poupemos-lhe a solidão! as agonias! a frieza!»{257}

A paz, rostos amigos, todos os consoladores thesouros da esperança christã, eis o que queriam dar á doentinha em troca da sua compadecida affeição pelo seu irmão d'infortunio, a quem ella tinha dito no dia do seu captiveiro:

—Queres tu a minha sopa? Eu quando não como bastante não me importa.