Eis aqui como as coisas se passaram: Perdemos de vista Adalberto, no momento em que um homem d'uns cincoenta annos, embrulhado num capote de lã grossa, o levou, depressa, depressa, depressa... Este homem tinha, é verdade, cara de poucos amigos, e o olhar sombrio; mas fallava um pouco francez. Na sua grande afflicção, a criança, que não suspeitava uma traição, seguiu-o em silencio. Andou muito tempo, tanto tempo que as suas perninhas fraquejaram, e que de repente, desanimado pela fadiga, pelo medo, pela fome e pelo sangue frio d'aquelle que o conduzia começou a chorar.

«Tu choras?» disse-lhe o desconhecido com um tom de falsa bondade, e, repetindo-lhe que sabia onde estavam seus paes, e que os iam encontrar, o homem trigueiro, do qual um grande chapeu escondia quasi toda a enorme cabeça, fêl-o entrar em uma casa suja e meia escura, onde lhe disse que esperasse um instante. A criança estava morta de fome e de sede; o desconhecido fêl-a comer e beber, beber, beber tanto, que, sob as vistas do malvado, o querido pequeno sentiu-se como sobrecarregado por um peso extraordinario; os olhos fecharam-se-lhe, já não{54} tinha medo; uma especie de indifferença e quasi de bem estar succedêra a toda a emoção triste... emfim, adormeceu profundamente. Era o que o homem do chapeu grande, tinha preparado; e tomando nos braços a sua innocente victima, dirigiu-se precipitadamente para a estação do caminho de ferro, deixando a cidade, e tendo o cuidado de embrulhar Adalberto no grande capote de lã, afim de o fazer passar por uma criança doente.

Desde então, o que succedeu? Onde foram? O pequeno dormia; quando, sahiu d'esta especie de lethargo, não obteve resposta alguma ás suas perguntas, e viu passar na sombra uns homens que se pareciam com aquelle que o levava. Estava morto de susto. Depois de mil voltas avistou uma grande carruagem, uma especie de casa ambulante, tendo janellas com taboinhas: o homem trigueiro deu uma grande pancada na porta, e disse algumas palavras na lingua particular dos Ciganos; depois, com uma mão de ferro, agarrou o pequeno francez, e levantou-o: um rapaz abriu a porta fazendo chacota, e Adalberto achou-se no meio de um corredor estreito, que dava communicação para miseraveis compartimentos... a que chamavam quartos.

Uma mulher muito velha, feia, negra, e secca, dirigindo-lhe a palavra em mau francez, fallou-lhe como ordinariamente se falla aos cães. Elle não comprehendeu bem; desejou sómente{55} descer os degraus que acabava de subir para entrar na carruagem: mas a porta tinha-se fechado. O pequeno imprudente olhou para a velha e disse-lhe imperiosamente:

—Abra!

—Não, não, não, respondeu a terrivel velha; uma vez que se sobe é para sempre.

—Para sempre? repetiu Adalberto com indignação, e, comprehendendo o horror d'estas palavras, levantou os braços e começou a gritar!

Uma mão suja, horrenda, decrepita, collou-se-lhe sobre a bocca, em quanto aquella furia soltava horrorosas blasphemias.

A criancinha estava cheia de susto sem saber o que havia de pensar: era como a destruição completa de toda a sua vida, e, não só por medo como tambem por surpreza, perdeu os sentidos.

Quando fechou os olhos, a mão suja e má, que o tinha obrigado ao silencio, despregou-se-lhe dos beiços; mas, aquella mão, como se estivesse resolvida a fazel-o soffrer, foi buscar um pucaro d'agua bem fria e deitou-lh'a sobre a cara. O querido pequeno abriu os olhos, olhou de roda de si como para procurar sua mãe, e disse lavado em lagrimas e muito humildemente: