Era filha do homem do chapeu grande e da sua primeira mulher, que tinha morrido logo depois do nascimento de sua filha. O Cigano, contra os costumes da sua raça, tinha{58} casado com ella por capricho, apesar de não ser Cigana, mas uma pobre rapariga de Lyão. Achava-se orphã e na miseria; e a miseria e a inexperiencia dos dezeseis annos tinham-na levado a aceitar esta exquisita união; uma irmã mais velha, não deixando de a condemnar, interessava-se comtudo pela criança nascida d'aquelle imprudente casamento, e dava de tempos a tempos uma lembrança a Gella.

Assim como era, esta robusta e trigueira rapariga produziu no prisioneiro uma impressão de temor e de confiança. A maneira de fallar depressa, os olhos tão pretos, as sobrancelhas carregadas, tudo isto o intimidava; e, comtudo, aquelles lindos braços deviam ser carinhosos; era impossivel que uma criança infeliz se lançasse n'elles sem que a rapariga a apertasse contra o coração, porque, emfim, devia ter um coração.

Adalberto tinha tanta necessidade de o acreditar que dava esperança a si proprio, e disse comsigo:

Gella tinha 20 annos. (Pag. 57.)

—Um dia dir-lhe-hei que me quero ir embora, e ella ha de consentir em me deixar fugir. Se não deixar, fugirei sem ninguem me ajudar... Depois lembrava-se das suas caminhadas em Praga, e da difficuldade que se encontra quando se não sabe para onde se deve ir e quando não se falla a mesma lingua da outra gente. Este primeiro dia passou-se{59}
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{61} pois n'um profundo desgosto. O mau vinho tinha-lhe feito tanto mal que elle não quiz comer. Á noite ouviu dizer a velha ás crianças que se deitassem, e admirou-se comsigo mesmo de que Karik, que não tinha mais de quatorze annos, recusasse obedecer; uma boa bofetada decidiu-o. Adalberto ficou vexado de encontrar o seu grande defeito n'um garoto tão mal creado. Quanto aos outros dois, foram mansos como cordeiros, e promptamente cumpriram o que mandou Praxedes; mas o pequeno de Valneige notou, que nem a velha nem Gella disseram como Rosinha sempre dizia:

—Vamos, meus meninos, ponham-se de joelhos e digam a sua reza.

—Não, pensou elle, ninguem aqui reza a Nosso Senhor; é sem duvida porque o não conhecem.

Emquanto Natchès e Tilly se deitavam, um na estreita enxerga que partilhava com Karik, e a outra aos pés da cama de Praxedes, Adalberto lembrou-se que não tinha rezado a sua oração da noite, elle que conhecia Nosso Senhor. Mas o seu terror era tal que não ousou pôr-se de joelhos. No fundo do seu coração teve um grande enternecimento; todo o seu pequenino ser se prostrava pelo pensamento diante d'esse divino protector que véla por nós, e, em vez de começar a sua oração pelas palavras do costume, o querido{62} pequeno apenas repetiu muito baixo, muito baixo, para só ser ouvido no Céo:

—Perdão, meu Deus! perdão por ter desobedecido!