Tilly sentiu tambem a offensa, apesar da sua infancia. Quando o espelho passou por ella, a boa pequena bafejou-o com o seu halito para o fazer baço, ao menos n'um bocado. Adalberto comprehendeu a bondade d'esta acção, e olhou amigavelmente para Tilly que não ousava dar palavra nem mexer-se. Mas Gella em tres passos chegou-se a seu mau irmão, arrancou-lhe bruscamente das mãos o espelho e foi pôl-o no seu logar.{76}
Adalberto ficou-lhe grato por esta delicadeza, no meio da sua grosseria masculina e popular; voltou-se para ella com um sentimento de esperança, e disse comsigo mais uma vez:
—É ella, sim, ella é que ha de livrar-me!
Uma coisa o affligia; era vêr a velha Praxedes cortar com a grande tesoura a roupa branca e o fato que acabava de lhe tirar.
Era sem duvida para que não ficasse na carruagem um unico objecto que podesse causar suspeitas.
Tinha instinctivamente mettido na algibeira um feio botão cosido pela Rosinha na algibeira das suas calças de panno azul, no momento de deixar Valneige; na sua precipitação, não achando um que dissesse bem, a boa mulher tinha posto aquelle que dizia mal e que, apesar d'isso, tinha ficado, como muitas vezes succede ao que não é senão provisorio. Pelo mesmo instincto de exilado apanhou o pequeno bocado do collarinho em que tinha deitado o borrão brincando com seu irmão. Na sua dôr infantil, eram para elle duas imagens do passado, de que fazia dois thesouros. Ah! como elle apreciava agora todas as felicidades de Valneige: a familia, a casa, um agasalho em tudo, sem fallar da polidez, da boa educação. Aqui, tudo era grosseiro!
Foi um momento bem penoso aquelle em que elle pela primeira vez teve de comer a sopa dos ladrões. O prisioneiro morria de fome;{77} como já disse, não jantára na vespera; o seu estomago soffria, e quando a velha lhe trouxe uma sopa de batatas n'um prato rachado, experimentou ao mesmo tempo um nojo e uma irresistivel necessidade de alimento.
Tomou pois aquella sopa que, na verdade, não era muito má, e que pelo menos devia ser substancial, porque uma colher de ferro mettida n'ella ficava em pé.
Emquanto almoçava, parecia-lhe vêr a casa de jantar do castello; quatro pratos de porcelana muito branca, postos sobre a linda mesa de pau santo, e Rosinha servindo a sopa ás crianças. A querida mãe, passando para ir dar as suas ordens, e vendo a porta entre aberta, dizia jovialmente: «Bom appetite!» e riam; e elle, Adalberto, corria para a abraçar, mas Rosinha conservando o seu espirito de exactidão gritava-lhe:
—Faz favor de ficar aqui, pequeno lambusado; quem é que se levanta da meza antes de acabar? Não são horas de dar abraços, são horas de comer.