Partiu-se para Vienna, parou-se pelo caminho, como se tinha feito de Paris a Strasbourgo. O senhor de Valneige tendo resolvido demorar-se{26} pelo menos oito dias na capital da Austria, houve tempo de vêr muitas coisas e de passear com vagar na grande alameda do Prater e n'outras mais. As crianças não se cansavam de admirar o que se chama o Prater selvagem, parte do qual é uma antiga floresta, onde pastam veados e cabritos montezes. Estes, lindos animaes, juntando as vantagens da vida domestica aos encantos da liberdade, ouvem, todas as noites o som da buzina, e dirigem-se para junto da casa de campo, onde os espera uma distribuição de ração.

Eugenio e Frederico achavam isto uma bella idéa, e tinham razão.

O chefe da familia levou seus filhos ao arsenal e fel-os visitar as differentes officinas, onde se fabricam armas. Passaram alli tres horas e decidiram depois seguir para S. Cyro.

A senhora de Valneige tendo mostrado desejo de conhecer os arredores de Vienna, seguindo em caminho de ferro a margem direita do Danubio, todo o rancho se pôz a caminho. Viu-se primeiro Schonbrunn, castello imperial, acabado no tempo de Maria Theresa. N'este castello nota-se o quarto onde Napoleão assignou o tratado de Schonbrunn em 1809, e onde vinte e tres annos depois, pela instabilidade das coisas humanas, morreu seu filho o duque de Reichstadt. Adalberto, pela sua pouca idade, reparou menos n'este contraste historico do que nas trinta e duas estatuas de marmore, que ornam{27} a linda fonte, que dá o nome ao castello, e sobretudo no leão e nos outros animaes que se vêem nas jaulas.

Visitaram tambem o castello de Luxembourgo. De todas as recordações austriacas, as que mais prenderam a attenção de Adalberto, foram as velhas carpas doiradas, que viu no lago, quando voltaram do castello para a estação do caminho de ferro; deu-lhes pão, que ellas se dignaram aceitar, como tinham feito os peixinhos encarnados das Tulherias. Vê-se que Adalberto era bem recebido não só em França mas na Austria.

Passaram-se rapidamente estes oito dias e os viajantes emcaminharam-se para Praga, parando sempre nas grandes estações. Adalberto deixou Vienna sem saudade; achava que havia na capital da Austria uma coisa muito aborrecida, um verdadeiro e muito grande inconveniente—era preciso andar pela mão. Não se pode fazer idéa do espirito de independencia d'este sujeitinho. Obedecer era para elle um supplicio. Pobre, pobre Adalberto!

Estavam todos muito contentes por entrar na Bohemia. Este nome, dizia Camilla, tinha seu que de extraordinario, de interessante e mesmo um pouco de assustador; parecia-lhe que n'este paiz só devia haver gente, que lêsse a sina e deitasse as cartas.

O senhor de Valneige, que não perdia occasião de instruir seus filhos, contou-lhes em{28} poucas palavras a historia d'aquelle terreno elevado, que está como fechado por uma cinta de montanhas e cortado pelas ramificações das mesmas montanhas.

Ensinou-lhes a não confundir os Ciganos com os Bohemios. Estes são os habitantes do paiz, que vivem como todos nós; os Ciganos, aos quaes tambem algumas vezes se chama Bohemios, formam um povo á parte, que conserva os traços caracteristicos de uma nação errante, que no seculo quinze se espalhou pela Europa, e principalmente na Hungria, na Italia, em França, e em Hespanha. Ha d'estas tribus nomadas em todas as nações; o nome muda, mas os costumes não. Em França chamam-lhes Bohemios; em Hespanha Gitanos; em Italia Zingari; em Inglaterra Gypsies; em Portugal Ciganos.

Este povo offerece um espectaculo muito singular no nosso velho mundo: desprezado, perseguido durante trezentos annos, e, apezar d'isso, sempre de pé, sempre errante, roubando por onde passa e lendo o futuro. Percebe-se que justamente pelos seus exquisitos costumes casem entre si, e assim se prepetua esta raça independente, temida não sem razão, e vivendo no meio do povo sem nunca se misturar com elle, a não ser para lhe recitar as suas loucuras e embustes, divertil-o um momento e tirar d'elle o pouco de que precisa para prover as suas mui limitadas necessidades. Comtudo, em certos paizes, os Ciganos não são errantes; os{29} de Hespanha, os Gitanos, habitam em Cordova e Sevilha bairros separados; mas fallam em toda a parte a mesma lingua; esta lingua é doce e harmoniosa, e deriva do slavo.