Para vencer tão grandes difficuldades, o historiador deve fecundar por uma vasta preparação geral e technica um espirito extremamente complexo e profundo. Qual seja essa preparação geral deriva da indicação acima feita dos estudos subsidiarios que condicionam o conhecimento da Sciencia{87} social. A preparação technica resulta semelhantemente da propria natureza da Sciencia social. Elle suppõe o conhecimento exacto dos factos adduzidos e a sua classificação methodica em grupos naturaes. Quanto aos dotes de espirito o historiador deve conter um sabio e um artista. A capacidade de observação exacta dos factos particulares deve estar ligada á faculdade das idéias geraes; e além d'isso a imaginação pittoresca que permitte a representação nitida e colorida das paysagens que constituem o palco da Historia, ha de ser completada pela imaginação psychologica que faz a alma dos individuos e povos que são os protogonistas da Historia. Finalmente o grande historiador deve ser um grande escriptor e empregar um estylo que reuna á precisão propria do trabalho scientifico, o colorido proprio das descripções, e o movimento proprio das narrações.

Comparemos este modelo do historiador ideal com o retrato já traçado do Sr. Oliveira Martins e veremos o que elle tem e o que lhe falta.

O seu saber é vasto inda que incompleto. Os volumes publicados da sua Bibliotheca das Sciencias sociaes e os annunciados no programma, revelam que o Sr. Oliveira Martins tem consciencia da importancia e largueza de estudos com que se deve preparar para o trabalho historico. Comtudo seria para desejar que o auctor conservasse ineditos os livros em que a sua originalidade e competencia{88} são contestaveis, e estudando convenientemente os assumptos sobre que elles versam, se abstivesse de tratar publicamente sciencias de que só se podem occupar com auctoridade os especialistas.

No que toca á exactidão dos factos enunciados nos seus tratados de historia nacional, constituidos pela Historia da Civilisação Iberica, a Historia de Portugal, e o Portugal Contemporaneo, o Sr. Oliveira Martins não tem o habito de enumerar os documentos compulsados e discutir as fontes exploradas. As notas, que nas grandes historias classicas acompanham e comprovam as affirmações feitas no texto, não apparecem na sua obra. É verdade que historiadores como Mommsen e Curtius supprimiram nos seus livros monumentaes a bagagem das demonstrações; mas esses historiadores já tinham assignalado a sua actividade de investigadores em numerosas dissertações especiaes, e accumulado materiaes que serviam de base ao auctor e de garantia ao leitor. Considere-se ainda que escreviam sobre assumptos largamente explorados. O Sr. Oliveira Martins occupando-se da historia de Portugal, deveria redobrar de precauções no que toca ás provas. Mas acceitando-a tal como está escripta, e lastimando que ella não seja mais extensa, observaremos que a conhecida assiduidade ao trabalho e a sinceridade certa do Sr. Oliveira Martins, são consideraveis garantias da veracidade das suas asserções.{89}

Quanto as aptidões cujo conjuncto constitue o seu espirito, já vimos que o Sr. Oliveira Martins possue a imaginação dos movimentos, das massas, das forças e que as suas paysagens representam as expressões moraes dos aspectos physicos; e que além d'isso possue a capacidade e o habito de explicar os aspectos physicos como mechanismos naturaes. Se reflectirmos que estas duas aptidões exgottam a noção do scenario historico, considerado como um conjuncto de causas efficazes actuando sobre espiritos, veremos que o Sr. Oliveira Martins está apto pela imaginação pittoresca e pela razão abstracta a descrever e explicar o meio dos successos que narra. Semelhantemente e ainda melhor a sua admiravel imaginação psychologica habilita-o a ver o interior das almas individuaes e collectivas que põe em scena. Essa imaginação, integral e intensa, prima na representação das emoções, e como a maioria das acções é determinada por emoções, resulta d'ahi que o Sr. Oliveira Martins está apto para representar o agente da Historia, como representara o seu meio. E o mesmo poder de abstracção que lhe permittira comprehender as relações geraes entre os factos physicos, lhe faz ver o nexo logico que determina as coexistencias e as sequencias dos factos moraes.

Vimos que o seu estylo era destituido de ordem, precisão e clareza, e que abundava em movimento, força e vida. A ausencia das primeiras qualidades{90} prejudica a sua Historia considerada como obra de sciencia, e impede que ella se possa considerar como obra de vulgarisação. A presença dos outros dotes dá-lhe um valor raro como obra de arte. O seu vocabulario trivial, technico, fornecido em todos os recantos da vida, permittir-lhe-á fazer descripções coloridas e supprir pela abundancia de pormenores concretos a nitidez ausente que lhe daria a ordem que não possue. A syntaxe rapida e tortuosa permittir-lhe-á fazer narrações dramaticas e vivas e acompanhar pela marcha offegante e irregular dos periodos a successão precipitada e sempre nova dos acontecimentos. Finalmente todos os outros expedientes de composição revelando o sentimento do real e a paixão intensa convergem no mesmo sentido; e a mesma solidariedade que prende a sua obra á sua imaginação e á sua sensibilidade, liga a ella o seu estylo.{91}

[VII
O POLITICO]

Tendo escripto a Historia de Portugal, o Sr. Oliveira Martins resolveu continual-a e naturalmente o pensamento conduziu-o á acção.

Não entra no programma d'este estudo occupar-me de assumptos de politica contemporanea, sobretudo quando trato de um homem cuja carreira publica apenas começa. Mas fazendo um trabalho de psychologia e não de simples critica litteraria, não me é licito calar uma das manifestações mais importantes do espirito que analyso. Porém indicarei apenas o valor dos seus recursos e a tendencia geral das suas idéias como homem d'Estado.

As faculdades que fazem o homem de acção em cada esphera da actividade humana, são essas mesmas que fazem o homem de sciencia, mais o tino das circumstancias particulares. As do estadista são as do historiador; digo as do historiador e não as do sociologista, porque o conhecimento das leis{92} abstractas que regem o equilibrio e o movimento das sociedades, não é sufficiente para dirigir a acção conservadora ou modificadora dos governantes; é preciso reunir-lhe o vivo sentimento do concreto, a visão plena dos innumeraveis factos particulares que dão a um povo um caracter individual e fazem que nenhuma deducção abstracta o possa adivinhar. Pense-se na immensa complexidade do organismo collectivo, no caracter profundamente individual que uma sociedade reveste em virtude das circumstancias de raça, meio e momento, na obrigação de conhecer plenamente a força e a direcção das vontades, a energia e a profundidade dos instinctos, a vitalidade e a duração dos preconceitos, as necessitades materiaes ou moraes, reaes ou ficticias dos seus membros, reflicta-se na obrigação de conhecer essas forças na sua quantidade exacta e na sua direcção certa, nas proporções variadas em que ellas se combinam e nos systemas complicados que d'ellas resultam, medite-se que cada um dos factos presentes tem profundas raizes no passado e consequencias inevitaveis no futuro ainda o mais remoto, e ver-se-á que essa improvisação maravilhosa e certeira que se chama a arte de governar, consiste na visão adequada e perpetua, retrospectiva e prophetica das almas sobre que ella se exerce, e que a politica é psychologia activa e em ponto grande. Note-se emfim que o habito da representação concreta degenera facilmente no empirismo{93} e que a habilidade technica descamba no especialismo estreito, para se admirar ainda mais a plasticidade mental dos que conservam intacto sob a acção das questões quotidianas o sentimento dos interesses geraes e caminham atravez dos expedientes com olhos fitos nas idéias.