Como lhes sou obrigada! (Senta-se no sophá). Porém estava fatigada, e vim descançar um pouco.
Fernando (senta-se ao seu lado)
Agora, que estamos sós, vou dizer-te com franqueza o que ha muito te occultava: essa tua linda voz e deslumbrante belleza, sempre, sempre me inspirava um amor sincero, crê; e p'ra prova d'esse amor e que te sou affeiçoado, aqui te offereço esta flor, (tira a flor da lapella e colloca-a no cabello de Traviata) que te ponho no toucado: e visto que não recusaste estas amorosas fallas, vamos girar pelas sallas, fazer ferro a quem nos vê.
Traviata (áparte)
Oh! quando Alfredo souber vae de dor, oh! sim morrer! (Sahe pelo braço de Fernando).
SCENA X
Alfredo
(Depois de espreitar)
Ainda bem! Já cá não está! Nunca vi um pae assim; anda sempte atraz de mim; mas creio que homem sou já, e que não parece mal eu andar por aqui sósinho. Na verdade, é tão bomzinho a gente andar á vontade. E Traviata como é linda! Que meiguices! que bondade! Cada beijo é uma braza que ella me põe na bochecha; e diz que nunca me deixa e quer levar-me p'ra casa. (O creado entra e apresenta-lhe um cartão de visita, e sahe). O que é? É para mim. (Examinando o cartão) É d'ella! É o seu cartão; já lhe senti o seu perfume. (Lendo) Mas que vejo?! uma traição! «Não acceito o seu amor; julguei que era rico e nobre: não insista por favor, não sou amante p'ra pobre.»
(Colerico) Alma vil! Mulher ingrata! Ah! perfida Traviata! A côrte de um rico acceita, e o amor d'um pobre engeita. Pois bem, toma sentido, a teus pés me vou matar e salpicar-te o vestido com o sangue que espirrar. Tenho um rival que é ricaço: pois verás o que lhe faço; tão depressa eu logre vel-o hei de logo ali estendel-o. Julga-me talvez um urso; pois póde ter a certeza que me ha de ouvir um discurso que nem do Rei da Madureza! Ah! como a vingança consola! Como é bom desabafar! Degredado irei p'r'Angola, mas morrer sem me vingar, isso… hom'essa pistarola!