Não fujo, pódes rasgar
Este peito desgraçado;
Que o teu gesto retratado
Has de, cruel, nelle achar.
Posto que veja roubar
Á Parca a tesoura forte,
E dar-me na vida córte,
Inda ouvirás, que te digo:
«Ingrata, não me desdigo,
Hei de amar-te até á morte.»

Vem, Amor, auctorizar
O sagrado juramento
De até ao final alento
Firmemente te adorar.
De joelhos, no Altar
Co'a devida submissão
Resoluto ponho a mão;
Juro nas settas tremendas
De te amar, quer tu me offendas,
Quer tu me queiras, quer não.
Amor co'as mãos apressadas
Ergue dos olhos a venda,
E pasma da jura horrenda,
Que assusta as aras sagradas.
«Eis as correntes pezadas,
Que te esperão,» diz irado.
Eu as acceito humilhado,
«Não, ó Deos, não esmoreço
C'os ferros, posto conheço
Serei no amor desgraçado.»

A Liberdade ultrajada
Lança-me a revez a vista;
Risca-me da honrada lista,
E chama-me escravo irada.
Não crimines indignada
Esta nobre sujeição.
Arrastro o ferreo grilhão;
Mas por quem? Por Nize bella.
Ah! sim te deixo por ella;
Mas com discreta eleição.

MOTE.

Toda a Mulher he perjura.

GLOZA.

Triste solitario freixo,
Mais triste do que eras d'antes,
Conta, conta aos caminhantes
A razão com que eu me queixo.
Em teu tronco escrita deixo
Minha funesta aventura:
Reconta esta historia dura,
Por que veja quem a ler,
Que depois de Armida o ser
Toda a Mulher he perjura.

Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor
Marquez de Penalva.

Illustrissimo Penalva,
Já que me dais protecção,
Sentido na occasião,
Porque bem sabeis que he calva.
Se o vosso braço me salva
Das crianças pertinazes,
Se a poder das vossas frazes
Meu duro grilhão se corta,
Por triunfo á vossa porta
Pendurarei dous rapazes.

MOTE.