—Um pouco mais cedo, é verdade; mas puz-me a pintar e o tempo passou mais depressa do que eu imaginava.
—De certo que não presume que eu me satisfaço com similhantes razões; deveria, pelo menos, ter inventado outras, dizer-me ainda que estava á espera do seu amigo Miflaud, que foi elle que o demorou...
—Disse-lhe a verdade, minha senhora, não tem razão em não me acreditar. Estive trabalhando.
—Esteve trabalhando! e desde quando, se me faz favor, desde quando lhe veio esse bello amor pelo trabalho, que eu lhe não conhecia?
—Estou admirado de que a senhora me diga isso, porque, desde algum tempo a esta parte, temos tido bastantes conversações a tal respeito. Sim, minha senhora, puz-me ao trabalho, e d’aqui em deante conto empregar assim uma parte do meu tempo, a minha resolução está tomada e é inquebrantavel, agora não mudarei. Estou envergonhado da vida que tenho levado até hoje, e é preciso que isto acabe. Bastantes vezes lhe tenho manifestado o desejo que sentia de achar um emprego. Em vez de me confirmar n’este designio, a senhora tem sempre procurado fazer-me esquecer do que a minha posição tinha de censuravel. Não lhe faço uma arguição. Deus me livre de tal! cada um ama a seu modo: uns sómente pelo prazer de amar; outros pela felicidade que experimentam em ouvir fazer o elogio do objecto da sua escolha. Eu possuo só um recurso, a pintura. Posso, á força de estudo, de trabalho, adquirir algum talento. É o que vou tractar de fazer; não ve o em que isso me poderia malquistar com a senhora, porque lhe asseguro que os prazeres parecem mais doces, quando vêm depois das horas de trabalho.
Casimiro disse tudo isto com um ar tão decidido, n’um tom tão firme, tão convencido, que a sr.ª Montémolly comprehende que d’esta vez não triumphará da nova resolução do seu amante. A colera desappareceu então como por encanto. É que ella conhece Casimiro sufficientemente para perceber que perderia muito no conceito d’elle, procurando ainda estorvar-lhe os projectos. Em vez d’isso, faz esforços para retomar o seu ar gracioso, e toma-lhe o braço, dizendo-lhe:
—Perdôe-me, meu amigo, eu não tinha razão; não o censurarei mais por trabalhar. Mas isso ha-de impedir-nos por ventura de irmos ainda passear algumas vezes?
—Ah! estou ás suas ordens e encantado de a achar tão razoavel...
—Pois bem! então, vamos dar um passeio até ao bosque, e á volta jantaremos no Ledoyen...