Ruy, a Talitha

Ella está gracejando;
sabe tudo tão bem como eu, mas imagina
que tu és ciumenta e então, de vez em quando,
a recordar o tempo em que era rapariga,
faz pirraças á gente, armando alguma intriga...

Talitha

A verdade, porém, é que faltaste e eu não.

Ruy

Pois bem, faltei; mas tive uma forte razão:
o velho reformado estava agonisante
e mandou-me chamar; eu fui no mesmo instanteassistir-lhe á agonia. Expirou-me nos braços:
ia o sol a fugir na curva dos espaços,
á hora em que soluça o sino das trindades
o Angelus sagrado envolto nas saudades
que a terra balbucia, agradecendo ao céo
a luz que lhe mandou na flacidez do véo
crepuscular e dôce, oiro tecido em gaze,
sem brilho de offuscar e sem calor que abraze.

Talitha

E nunca mais o vi, nem o verei jamais!...
Foi cégo como eu fui. Nas manhãs estivaes
muita vez o encontrei, cançado dos trabalhos,
pedindo esmola ahi por todos os atalhos.
Elle ia pela mão da neta, uma creança!
Era um velho senil á sombra da esperança!
Eu ía recostada ao braço do padrinho
e, ao sentir-me, dizia: «ampare-me esse anginho
—amigo Padre-Cura, eu quero que elle veja
—como um velho soldado, a mendigar, rasteja
—neste mundo de Christo»—. E ficava a pensar
naquelle desgraçado. O meu perdido olhar
novamente voltou, quando o delle se apaga
na escuridão mortal que tudo cobre e alaga...
Se eu pudesse amparar as pobres creancinhas!

Ruy

Não faltará calor ás meigas andorinhas.