Ai! que acabou a festa
e a ceia por fazer, mas que cabeça é esta!...
Sae e entra constantemente, nos arranjos da casa
Ruy
Mas não te lembras já que, em nome do Senhor,
o Cura abençôou o nosso casto amor?
Não te lembras tambem da lucida visão
que te trouxe do céo a estrella do perdão?
Talitha
De tudo me lembrei; não sei que força extranha
pesava sobre mim, como immensa montanha,
e não deixava erguer o meu olhar medroso
para encarar de frente o vulto magestoso
da Virgem Mãe de Deus! Mas quando o Cura entrou
parece que a minha alma
torna o sino a repicar
alegre despertou...
Senti uma esperança illuminar-me o seio
e dissipar-se então esse cruel receio!
Rezei muito, rezei com tanta commoção,
pedi com tanto ardor, com tanta devoção,
que a minh'alma subiu, tão leve e tão submissa,
aos pés da Mãe de Deus, durante aquella missa,
como se fôsse presa a hostia consagrada
que o Cura levantava á cruz abençoada...
Com ella o meu olhar de supplica subiu.
E fitando, sem medo, a face alabastrina
da candida judia, eu vi que Ella sorriu
com tão dôce expressão de placidez divina
que me banhou de luz amortecida e calma
a minha santa crença e fez vibrar minh'alma!
Senti que era o perdão que vinha, n'um sorriso,
abrir á minha vida um novo paraiso...
Ergui-me docemente, approximei-me d'Ella
e, beijando-lhe a mão que sobre o mundo vela,
ouvi, como um soluço, a sua voz tão pura,
dizendo-me em segredo, em intima ternura:
Que lindos olhos, Talitha,
os olhos que o Ruy te deu:
tem uma luz infinita,
parecem feitos no céo...
Joaquina, que tem parado o trabalho, attrahida pela narrarão de Talitha, enlevada, abraça-a, lacrimosa, beija-a...