O proprio autor da Talitha verificou praticamente o que acaba de affirmar quando escreveu a Visão de Colombo, em um acto, obedecendo systematicamente á regra da poetica franceza e emparelhando os alexandrinos por ordem de rimas agudas, graves e esdruxulas em toda a extensão do poema dramatico, formado de quatro centos e poucos versos, sem repetição de rimas.

Ramalho Ortigão ensina:

«não são as academias que pautam as proposições e os limites da creação artistica. Tudo o que se pode formular em preceito cessa de ter valor em arte. A obra de arte não é um producto de escola: é a livre expressão individual de uma alma, convertida em realidade objectiva e communicando aos homens uma vibração nova de sentimento.

«A superioridade ou a inferioridade de um artista, a sua cathegoria, deduz-se da maior ou menor quantidade de ideias que a sua obra suggere e dos sentimentos cuja percussão ella determina.»

Op. cit., pag. 145.

Adherbal de Carvalho doutrina:

«É no sentido da liberdade que em geral se faz todo o progresso; é neste sentido que tambem se deve fazer todo o progresso do verso.

«A liberdade do rythmo era muito insufficiente entre os romanticos. Vimos que a consequencia é a pobreza, a esterilidade do proprio pensamento; porque a forma do verso reage sobre o cerebro do poeta. O remedio seria a auzencia de estorvo sem fim, a suppressão de regras não racionadas: liberdade é fecundidade.»

Op. cit., pag. 282.

E depois d'essas duas sentenças, atreve-se o autor da Talitha a perguntar á critica indigena como será possivel arvorar em preceito obrigatorio de arte poetica da nossa lingua, a regra de Racine e Corneille, quando a tendencia moderna é para supressão da rima e para a cultura extremada do rythmo no verso branco?

A falla de Cacambo e o episodio da morte de Lindoya no Uruguay de Basilio Gama nada perderam em valor artistico pela falta de rima: o Colombo de Araujo Porto Alegre encerra verdadeiras maravilhas em verso branco; Alexandre Herculano, que foi um cinzelador do verso, na Harpa do Crente deixou primorosos lavores em verso solto.

Anthero Quental, cujas Odes modernas arrancaram a Michelet uma soberba explosão de espanto

«Se em Portugal ainda houver quatro ou cinco homens como o poeta das Odes modernas, Portugal continuará a ser um grande paiz vivo.»

Anthero legou nessa obra monumental pequenos monumentos em verso branco.