Ruy
Se pudesse voltar, ó minha boa amiga,
aos seus olhos de céga o perdido fulgor!...
Talitha
Nunca mais, nunca mais...
Padre
Porque é que te condemnas
se toda a nossa vida é uma esperança apenas?...
Talitha
Se é toda de esperanças esta vida,
já me fugiu aquella que voava
bem junto do meu seio e que roçava
sobre a minh'alma a aza foragida.
Nem sei onde ella vae, talvez perdida
nao volte a mim por não morrer escrava
na escuridão da noite immensa e cava
dos meus olhos sem luz e sem guarida...
Nunca mais fulgirás, dôce promessa,
na minha treva densa e prematura,
como o branco luar em noite espessa.
Se vive, o olhar dos cégos não fulgura,
dorme na sombra e de sonhar não cessa
na tristeza sem fim da noite escura!
Ruy
Não descreia, Talitha, as suas illusões
não fugiram, por ora, esparsas na lufada!
Quem foi que lhe roubou a ultima esperança,
que braços sem caricia, ou duras privações
lhe puderam vibrar tão rude punhalada?
Pois bem, toda a minh'alma alegre se abalança
a dizer-lhe, Talitha:—o seu formoso olhar
tão cheio de fulgor, um dia ha de voltar...