Ruy
Engeitada!...
Padre
Sim, sim. Ao romper da alvorada.
Ha muito tempo já. Inda no céo brilhava
a estrella da manhã; vieram procurar-me;
bateram ao portal com desusado alarme...
Ergui-me e fui abrir; a neve branqueava
os campos e eu pensei que um pobre moribundo,
no momento supremo em que deixava o mundo,
quizesse receber da minha propria mão
o balsamo final da santa extrema-uncção,
e abri desta choupana a porta sempre franca.
Parecia o jardim uma toalha branca.
Era um frio cruel, cortava como fôsse
o gume de uma faca e o fio de uma fouce...
Sahi, olhei em roda e já não vi ninguem.
No céo luzia só a estrella de Bethlem!
Não sei porque a fitei nesse feliz momento.
Um silencio profundo amordaçava o vento;
dormia a natureza um somno indefinido,
vibrou então no espaço um timido vagido...
Estremeci de horror...
Ruy, com anciedade
Era a pobre Talitha?!
Padre
Approximei-me e vi, aqui junto do banco
um cestinho de verga envolto em panno branco.
Banhou-me o coração uma dôr infinita.
Na tragica mudez da alvorada deserta
tomei nas mãos, tremendo, a delicada offertae agasalhei-a ao peito, assim, para aquecel-a
como quem agasalha o corpo de uma estrella
que tombasse do céo...
Ruy, com mais anciedade
E esse penhor amigo?!...