Ruy
Esse mesmo receio
tambem me preoccupa. Eu já presinto a dôr
que vae, como um espinho, amargurar-lhe o seio.
Assim a Providencia ás vezes desconhece
o proprio mal que faz e como que se esquece
da victima innocente e nessa lucta enorme
a desgraça feroz que não cança, nem dorme,
de certo vencerá, se nós que a divisamos
ao longe, no horisonte, a deixarmos crescer
tão alto, que domine aquelle pobre ser.
E preciso pensar e vêr bem se afastamos
da sua intelligencia a ideia do convento,
como se afasta a flôr dos impetos do vento.
Padre
E quem terá prestigio e força de arrancar
áquella consciencia, a dôce, a delicada,
a candida expressão da promessa sagrada
que ella espontaneamente ergueu junto ao altar?
Ruy
Nao desejo arrancar essa illusão formosa
á crença da sua alma... A raiz dessa rosa
não é muito profunda, apenas esbraceja
á flôr do coração, por isso não viceja
ainda como o seio altivo e perfumado
de uma corola aberta!... Um botão delicado
agora principia a despertar á luz...
Dessa casta missão, que moverá Jesus,
sómente, Senhor Cura, a sua phrase austera
se póde encarregar; o prestigio da idade,
a alvura de luar das cans alabastrinas,
a palavra de amor, piedosa e severa,
do seu conselho bom, tão cheio de amizade,
a sua consciencia e as affeições divinas
que avizinham do céo o seu viver de santo,
a fé que o seu olhar inspira a quem o fita,
hão de estancar, por certo, a dôr, fonte do pranto,
nos olhos virginaes da mimosa Talitha.
Padre
Sacerdote de Deus que o serve, ha tantos annos,
nas duras provações, na dôr, nos desenganos,
sem nunca haver mentido uma só vez na vida,
tenho medo que a voz de commoção me trema,
que me fuja o valor á hora assim blasphema
de entregar á mentira esta fiel guarida...
Ruy
Caridosa mentira, ó culpa dôce e casta
que salva uma esperança e mais um anjo afasta
á amargura cruel de um grande sacrificio!
Responda, Senhor Cura, em sua consciencia,acredita que Deus condemne uma existencia
purissima de flôr, a tamanho supplicio?
Que peccados terá Talitha a redimir
que precise descer em vida á sepultura,
agora que brilhou a estrella do porvir
aos seus olhos, sem luz, na densa noite escura?
Não mente, Senhor Cura, o labio quando salva:
é aspera a mentira e tem a côr terrena,
ao passo que a sua alma é branca, de açucena,
e a sua phrase é sã, é redemptora, é alva!
Em vez de sacerdote, a confessar a freira,
seja Pae que dirige o coração da filha!
Aquelle olhar sem luz, durante a vida inteira,
desviou-lhe a razão para diversa trilha.
Estenda-lhe o seu braço, ampare-a no caminho,
traga de novo a rola ao palpitar do ninho!