De luz, de encanto, de alegria infinda,
Aquelle rosto seductor esplende,
Brilha a ventura em sua face linda,
E vivo fogo o seu olhar accende!
Como a existencia para nós é bella
Entre a verdura d'esta amena estancia!
Aqui suspira a viração singela,
E esparge a rosa virginal fragrancia.
Livres, immunes neste doce enleio,
Dos gratos dias do saudoso abril,
Ouvir das aves o infantil gorgeio,
Gosar da sombra do enredado til...
Ella a meu lado, sobre os meus cravando,
Aquelles olhos cuja densa rama,
Agora occulta, logo vai deixando,
Brilhar o fogo da traidora chamma!
Se entro no baile onde o prazer se agita,
Eil-a, a formosa, no veloz passar,
Louca os seus olhos nos meus olhos fita,
E mil affectos me traduz no olhar!
De luz, de encanto, de alegria infinda,
Aquelle rosto seductor esplende;
Brilha a ventura em sua face linda,
E o ceo no fogo que esse olhar accende!
Abril de 1854.
[XXXVI]
(Terceira)
Lembras-te, Elisa, quando a face pallida,
Da casta lua despontou no ceo,
E d'entre a balsa suspirada, e languida,
Mavioso canto o rouxinol rompeu?
Naquella noite em que o perfume vívido
De mato agreste rescendia no ar,
Em que as estrellas fulguravam timidas
Nas doidas ondas do ceruleo mar!
Lembras-te, dize, quando tu, mirando-me,
Com todo o fogo de infantil paixão,
Em voz sumida murmuravas: Amo-te!
E me apertavas docemente a mão!
E que eu perdido de ventura olhando-te
Da meiga lua ao divinal fulgor,
Teu rosto de anjo contemplava estatico,
Candida pompa de inspirado amor!
Nesse momento fervorosa supplica
Do intimo d´alma murmuraste a Deus,
Que amor, que encanto nos teus olhos humidos,
Quando os cravastes na amplidão dos ceos!
Depois sentada nos degraus de marmore
Sombra encantada, celestial visão,
Que meigas fallas proferiste tremula,
Que mil protestos me juraste então!
Depois as rosas que animavam vívidas
Teu bello rosto, desmaiar eu vi
E vaga sombra de tristeza subita
Cerrar-me forte o coração senti!
Maio de 1853.
[XXXVII
]
CIUMES DO PASSADO
Quando teu rosto adorado,
Da luz do amor se illumina,
Resplandecente a meu lado,
Não sabes por que anuviado
O meu semblante se inclina?
Por que um amargo sorriso
Pelos meus labios deslisa,
Quando teus labios, Luiza,
Me proferem anhelantes,
Tantos protestos de amor!
É que minh'alma se opprime
Á lembrança do passado,
Em que já outro a teu lado
Escutou essas palavras,
Que me repetes agora
Cada vez com mais ardor;
E que esses mordidos beijos
Que me perdem de ventura,
Dados co'a mesma ternura
Já perderam de desejos
Neste mundo outro tambem!
E tu não sabes, querida,
Os zelos que me devoram,
Á lembrança que na vida,
Já quizeste a mais alguem?!
Janeiro de 1851.