Vaes partir! cada instante que passa
Aproxima o adeus derradeiro,
Para mim neste mundo o primeiro,
Que teus olhos proferem aos meus!
Vaes partir! nessas morbidas palpebras,
Treme agora uma lagrima anciosa,
Já deslisa na face formosa,
Já teus labios me dizem adeus!
Vaes partir! contemplar esses campos,
Que o sol vivo de abril illumina,
Ver as relvas da alegre campina
Já cobertas agora de flor.
Escutar as estrophes sentidas
Que de tarde improvisam as aves,
Recordar os instantes suaves
De outros dias de encanto, e de amor.
Vaes partir! vaes tornar aos logares
Testemunhas de um ceo de delicias,
Que em suaves risonhas caricias,
Para nós neste mundo brilhou!
Cada flor, cada tronco viçoso,
Cada espaço de relva florída
Vae lembrar-te uma scena da vida,
Um momento feliz que passou!
Quando for aos clarões da alvorada
O perfume das plantas mais brando,
Quando as aves voarem em bando,
E cantarem ditosas no val;
Quando as aguas correrem mais vivas,
Pelo verde declivio do monte,
Quando as rosas erguerem a fronte
Animadas de um sopro vital...
Que saudade! ai que funda saudade
Has de ter d'esse tempo encantado,
Em que bella e feliz a meu lado
Viste as pompas da terra e dos ceos!
Quando a aurora era a pura alegria,
Uma vaga saudade o sol posto,
Quando meigo sorria teu rosto
Se eu fitava meus olhos nos teus!
.................................
Vaes partir! cada instante que passa
Aproxima o adeus derradeiro,
Para mim neste mundo o primeiro
Que teus olhos proferem aos meus!
Vaes partir! nessas morbidas palpebras,
Treme agora uma lagrima anciosa,
Já deslisa na face formosa,
Já teus labios me dizem adeus!
Abril de 1855.
[IV
]
A JULIA
(Da Paquita)
Naquella deserta ermida,
Que alveja na serrania,
Deu signal, Julia querida,
O sino da Ave-Maria.
Este som tão conhecido
Da nossa innocente infancia,
Como agora vem sentido
Trazer-me viva á lembrança,
Toda essa doce fragrancia
D'aquelle existir d'então!
Ai! lembrança não, saudade!
Saudade Julia, tão funda...
Mas tão grata, que me innunda
De ventura o coração.
Espera... se neste instante
Mandasse á terra o Senhor,
Anjo de meigo semblante,
E aos dias d'aquella edade
Nos tornasse o seu amor...
Oh! responde-me, querida,
Se quanto depois na vida
De bello nos ha passado,
Não devera ser trocado
Por esses dias em flor?!
Que lá vão! lembras-te ainda?
Tu risonha doidejavas,
Por entre as moitas de flores
Como ellas fragrante e linda.
Quando o som pausado e lento
D'Ave-Maria escutavas,
Então naquelle momento
Aos pés da Cruz te prostravas!...
Que fronte de anjo era a tua
Vista ao reflexo amoroso
Dos frouxos raios da lua!
Uma tarde, ao pôr do sol,
No recosto pedregoso
Do monte nos encontrámos;
Lembras-te! essa hora bateu,
Porem nós mal a escutámos!
Os olhos, tu perturbada,
Baixavas, e no semblante
Não sei que luz te brilhava,
Eu sei que naquelle instante
O prazer me enlouqueceu.
Oh! fatal loucura aquella!
Tinha-me ali tão perdido,
Que, sem mais ver, delirante
Nos braços te arrebatei.
Não sei por onde vagava,
Nem quanto, nem como andei;
Só me lembra que a ventura
Ali real me fallava,
E que aos incertos lampejos
Das estrellas desmaiadas,
Impremi ardentes beijos
Nas tuas faces rosadas!
Foi breve aquelle delirio;
Ao menos breve o julguei;
E quando, outra vez á vida
De sobressalto voltei,
Desbotada como um lyrio
Pelos vendavaes batido,
Nos meus braços te encontrei!
Setembro de 1851
[V
]
IMPROVISO
Porque languida essa frente
Descai, quando a tarde espira?
Porque nesse olhar dormente
Tua alma ingenua suspira?
Porque? ai! porque? responde;
Que se amor do ceo procura,
Eil-o; em meu peito se esconde;
Vive, é teu, tens a ventura!
Verás como então brilhante,
Seduz, toma vida, inspira,
Esse teu bello semblante,
Que apenas hoje se admira!