Dezembro—1904.

...«Ha uma lei que domina todas as outras na historia da humanidade: nenhuma instituição vive, se sustenta e se radica senão pelo amor á liberdade. A lei, em virtude da qual existem instituições liberaes, cumpriu-se nos nossos annais contemporaneos. De 1851 a 1885 tivemos um periodo de liberdade e de paz. Foi um periodo de ascensão liberal.
«Aboliu-se a pena de morte, e só por esse feito se proclamou pela lei o direito á Vida. Proclamou-se esse direito com toda a sua elevação, dando a todos, inclusivamente aos indigenas das nossas colonias, onde se acabou com a escravatura, a faculdade de existir espiritualmente, como uma personalidade moral. Alargou-se a liberdade religiosa, tornando-a efectiva com o registo civil. Alargou-se a liberdade economica pela extinção dos bens de mão morta, pela abolição dos monopolios e pela criação legal das associações de socorro mutuo e das cooperativas. Dilataram-se as liberdades politicas com a extensão do sufragio e representação das minorias. Descentralizaram-se os municipios, deram-se as maximas franquias aos distritos e até se exarou na Constituição o principio liberal da eleição parcial da Camara dos Pares. Nesse periodo, que começou ouvindo-se a voz do grande tribuno José Estevão, parece que resoaram até ao final os acentos do seu verbo eloquentissimo.

«Essa epoca venturosa termina com a morte de Sampaio, Braamcamp e Fontes. E a prova de que todos os partidos colaboravam nessa grande obra de pacificação e de liberdade, está em que foi o conservador Fontes quem mais contribuiu para ella.
«Os partidos de governo definem-se pela sua concepção da constituição nacional: Constituição liberal, partido liberal; Constituição arbitral, partido reaccionario. Porque o arbitrio póde ser, num dado momento, a liberdade; mas sempre se converte por fim em absolutismo.
«No periodo de iniciação liberal fez-se a Constituição quasi republicana de 1822, e, em troca, os constitucionais da campanha da Terceira, do Cerco do Porto, de Almoster e da Asseiceira, tiveram a carta outorgada de 1826, que foi, consoante o livre alvedrio do imperante, a liberdade com D. Pedro IV, e a opressão com D. Maria II. Em oposição á carta outorgada, Passos Manuel e os setembristas fizeram a democratica constituição de 1838, decretada pela vontade da nação.
«No segundo periodo da nossa vida constitucional, que abre com José Estevão e se encerra pouco depois da morte de Sampaio, periodo que inaugura entre nós o parlamentarismo, os regeneradores fizeram os actos adicionaes de 1852 e de 1885, que são verdadeiros pactos constitucionaes, e não intervalos historicos, mas reformistas, constituintes, republicanos, que apresentavam os seus projectos, qual delles mais avançado, da reforma constitucional.
«De 1886 até hoje sopra um vento imperialista. A inspiração, em vez de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha cesarista. O partido progressista faz a centralisação dos serviços materiaes. Segue-se-lhe, no Poder, o partido regenerador, e faz a centralisação dos serviços espirituaes na instrucção, e depois dissolve as associações, rasga as liberdades municipaes, acaba com as representações das minorias, legisla dictatorialmente... E, por fim, para que toda esta centralisação não suscite uma revolução violenta, promulga a lei sobre o anarquismo, que é uma ameaça sempre suspensa sobre todos os liberaes.

«Antes de 86, o partido republicano, como partido de tal natureza, não era um perigo. Caminhava-se lentamente, pacificamente, para a Republica, e não haveria ninguem tão insensato que sonhasse fazer uma revolução para conseguir pela força o que se conseguiria, num prazo fatal, pela lei e pela liberdade. Além disso, ninguem faz revoluções por meras fórmas. Nós, os verdadeiros liberaes, duvidamos se não é preferivel uma monarchia, com todas as liberdades efectivas, com todas as descentralisações vivas, ou uma Republica como a francesa, em que o Poder central é omnimodo, e o regimen autonomo local nulo.
«Depois de 86, fracassadas todas as tentativas para regressar ao antigo caminho constitucional; fracassada a grande, generosa e derradeira tentativa de 93 a 94; com a fazenda publica em bancarrota; com todas as liberdades suprimidas; com a pena de morte restabelecida para os delictos militares e até para certos delictos civis; com a politica do engrandecimento do Poder Real no seu auge,—toda a gente pensa na Republica, porque ella não é já uma questão de mera fórma mas sim um problema organico de vida ou de morte para Portugal...

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«Os partidos estão em dissolução. O regenerador, com dois chefes; o progressista, com a perspectiva tremenda de uma herança tempestuosa. Mas poder-se-hão reconstituir dentro da monarchia? Andam varios nomes de boca em boca: os dos srs. Dias Ferreira, visconde de Chancelleiros, Costa Lobo, Augusto Fuschini, Anselmo d'Andrade e Augusto de Castilho. Viu-se, porém, o caso da monarchia rodear-se d'esses homens de positivo merito? São convidados sequer para as suas festas, que são oficiaes e não particulares?
«Entenderá e quererá a monarchia apoiar-se nas classes trabalhadoras, visto a burguezia estar contaminada? Foi esse o sonho do socialismo do Estado de Oliveira Martins e talvez o do militarismo democratico de Mousinho de Albuquerque. Mas a monarchia não soube aproveitar-se nem de um nem doutro. Oliveira Martins morria politicamente poucos mezes depois de ser chamado ao governo. Mousinho de Albuquerque não chegou sequer aos conselhos da Corôa, e suicidou-se. A monarchia tinha para a realização desse programma, alem d'esses homens, a voz mais eloquente dos nossos dias, a de Antonio Candido, successor de José Estevão, que teria sabido conquistar as massas populares, e para captar as simpathias internacionaes um diplomata, o marquez de Soveral, que pelas suas maneiras e espirito, é da raça dos Palmellas. Aproveitou-os, porventura? Antonio Candido, desiludido, emudeceu. O marquez de Soveral nada mais pode fazer do que abrandar o protectorado inglez.
«Hoje as massas afastam-se cada vez mais da monarchia, porque, como tudo se concentrou no Poder Real, todas as responsabilidades se lhe atribuem; o protectorado inglez serve para salvaguarda da monarchia; a ruina financeira do paiz vem da confusão dos dois erarios, e até o jesuitismo, se bem que não se imputa ao rei, é comtudo imputado aos que o rodeiam.

«Não é licito pois esperar a salvação dentro da monarchia. Por grande que seja a cultura do chefe do Estado, por muito que seja o seu valor, a empreza da nossa regeneração não é para um individuo só. Só a nação é que pode erguer sobre os seus hombros tão imenso peso.
«E não se diga que a monarchia está identificada com a independencia da patria. A nação foi, com efeito, sempre monarchica; mas desgraçadamente a monarchia tem-se encarnado na monarchia usurpadora dos Filippes, no governo napoleonico de Junot, no governo de Beresford, sob Jorge IV. A monarchia teve um papel soberano no começo da nossa Historia, mas foi-se gradualmente divorciando do povo.
«E as nossas alianças? Essas não são dos reis, mas dos povos. A aliança da Inglaterra é com Portugal, e não com as suas fórmas de governo.

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«A Republica em Portugal é necessaria para elevar a sua cultura, para acabar com o numero incrivel de analfabetos, para se consagrar á educação do povo. O estado actual o demonstra: tanto é certo que quando sofre a liberdade sofre tambem com ella a instrucção.
«A Republica em Portugal é necessaria para que a religião seja a união das almas pelo amor, como na economia social o é pelo trabalho. As ordens religiosas atacam não só o Estado como a verdadeira religião, cujos primeiros vinculos devem ser o amor da familia, a cooperação economica e o progresso politico da sociedade. O primeiro é combatido e negado pelo voto de celibato; o segundo pelo voto de pobreza, e o terceiro pelo voto de obediencia servil.
«Torna-se necessario defender a religião como um principio immanente de justiça e de bem, e não como uma superstição e um instrumento politico. O partido republicano não pretende destruir a religião; o que nós pretendemos é tornal-a sincera e pura, tornando-a voluntaria e livre.
«A aspiração do partido republicano encerra-se nestes tres principios: liberdade politica, liberdade economica e liberdade religiosa. Em nome de todos que querem saber, e não podem, oprimidos pela reacção politica, essa infinidade de creaturas analfabetas; em nome de todos os que querem trabalhar e não podem, oprimidos pela reacção economica, essa infinidade de proletarios; em nome de todos os que querem amar e ser bons e em cujo seio a reacção religiosa lança a semente de odio; em nome dessa infinidade de santas e piedosas mulheres que o clericalismo tenta desvairar e arrastar para fóra dos seus deveres; pelos pobres, pelos humildes, pelos fracos, saudemos a Liberdade e com ella o unico partido que hoje a sustenta e defende em Portugal: o partido republicano.
«Se a Republica que não pede senão o restabelecimento e o respeito á lei, não vier bem depressa, corromper-se-ha e perder-se-ha o santo fundo deste povo exemplar, um dos modelos de virtude, de paciencia e de resignação que existem sobre a face da terra».

Dezembro—1907.