Ninguem ignora em Portugal as circumstancias em que se desenrolou o regicidio. Na confusão da tarde tragica, a policia cae sobre dois dos regicidas e mata-os em legitima defeza. Mas permanece sempre firme a convicção de que os regicidas não eram sómente Buiça e Costa, que pagaram com a vida o seu delicto! Esta convicção fundava-se em factos de ordem material e moral, sobre os quaes não havia duvida de especie alguma. A prova moral da existencia d'outros cumplices reside na impossibilidade do atentado haver sido organisado e levado a efeito apenas por dois homens. A prova material forneceram-na numerosissimas testemunhas que viram a carruagem real ser alvejada, simultaneamente, de varios pontos e observaram a fuga de alguns dos cumplices do regicidio, um dos quaes, perseguido pela policia quando fugia, com o rewolver fumegante em punho, conseguiu perder-se de vista ao voltar uma rua, confundindo-se depois com a multidão espavorida que fugia do logar do crime.
É um vulgar principio de investigação judiciaria que os deliquentes se devem procurar entre aquelles a quem o delicto aproveita. Ora quem podia aproveitar com a carnificina da familia real? Se houvesse produzido uma mudança politica, aproveitavam evidentemente os republicanos cujo triumpho teria sido d'esta arte facilitado. Se tivesse originado apenas (como realmente produziu) uma substituição de governo resultaria proveitosa para os mesmos republicanos aos quaes João Franco havia fechado todos os caminhos. Vendo presos os seus principaes chefes e ameaçada toda a sua organisação, os republicanos esperavam reconquistar, com um golpe de mão, as posições primitivas. Não ha outras hypotheses a considerar, visto que o crime não podia ter sido perpetrado por uma conspiração de monarchicos nem representa um caso individual de terrorismo porque os regicidas não eram anarchistas.

O Buiça e o Gosta eram republicados militantes: trabalhavam nas ultimas filas dos revolucionarios. Livres pensadores, pertenciam á sociedade de propaganda d'onde, de resto, teem sahido todos os criminosos politicos. Homens de acção, pertenciam a uma loja secreta, a «Montanha», mixto de instituição maçonica e de comité revolucionario, sem local fixo e sem estatutos, que se reune a um simples convite dos jornaes da seita, ninguem sabe onde e que se compõe de homens capazes de tudo. Tudo deixa crer que o regicidio foi ahi deliberado e que, como é costume, os executores foram tirados á sorte, visto que apenas o sorteio explicava a escolha d'um dos regicidas, cujo passado se não ilustra com actos de grande coragem individual.
Mas sobre o regicidio, que inaugura a conhecida série de delictos politicos, não mais se tratou de fazer luz. Não se chegou a apurar quem foram os cumplices da emboscada e, se porventura se tentou esclarecer o caso, acabaram por concluir que era melhor guardar silencio sobre elle. No entretanto, occorriam novos factos que vieram documentar melhor a existencia d'uma organisação que liquidava pelo assassinio as dificuldades susceptiveis de embaraçar o movimento revolucionario. Poucos mezes depois do regicidio, um humilde engraxador apresentava-se á policia perfeitamente apavorado e narrava que dois republicanos lhe tinham proposto lançar uma bomba no coche que devia conduzir D. Manuel ao Parlamento. A declaração era verdadeira? Ignoro-o. Mas a policia prende os dois mencionados instigadores, um dos quaes é fulminado por uma congestão cerebral no gabinete do juiz. Este, quando se prepara para colher do denunciante novos esclarecimentos, vê o engraxador morrer envenenado n'um hospital no meio de horriveis aflicções. O desventurado declarava que morria por haver dito a verdade. Por falta de provas o processo foi archivado, o que poz de bom humor a imprensa revolucionaria, que já se dispunha a desviar a opinião publica com um diversivo.

Poucos mezes depois outro crime vem afirmar a existencia da seita. Alguns militares acusados de terem tomado parte no movimento revolucionario de 28 de janeiro, foram condenados a penas graves pelo tribunal, graças ao depoimento d'um sargento chamado Lima, que se insurgiu e referiu o facto aos seus superiores. O sargento passeava um dia em Setubal, para onde fôra transferido, quando um revolucionario se lançou contra elle e lhe cravou um punhal no coração. O assassino, preso quando fugia, allega uma historia inverosimil de rivalidade que as investigações policiaes desmentiram. Quanto á opinião da auctoridade e dos que conhecem de perto as scenas, referidas anteriormente, da quadrilha revolucionaria, é clara e expressa: o sargento foi condemnado á morte por ter denunciado a existencia da conspiração.
Dois suicidios mysteriosos—um sob o comboio de Cascaes, outro na redacção d'um jornal revolucionario—parecem ter intimas relações com a existencia da Mão Negra local.
Diz-se que os suicidas, designados para certos cometimentos, preferiram escapar pela morte ás intimações d'uma implacavel organisação secreta. Não faço aqui menção do caso das bombas explosivas com que ultimamente pretenderam alvejar algumas egrejas, depois da execução de Ferrer. Não ha provas da intervenção da Mão Negra, mas simples indicios de presumpção. Mas o que acabou de esclarecer o paiz sobre a existencia d'uma formidavel e perigosa associação secreta foi o recente crime de Cascaes, a que os jornaes independentes dedicaram longas columnas.
Vão decorridos alguns mezes depois que na administração das alfandegas se descobriu um importante furto de armas, que estavam para chegar ao seu destino. A ausencia d'um operario da fabrica de armas provou a sua responsabilidade no furto, logo confirmada pela captura d'um cumplice—um dos implicados na revolução republicana de 28 de janeiro—que era o receptador das armas roubadas. Já a policia averiguou o destino das armas, que se reservavam, com a complacencia de empregados aduaneiros, ao movimento revolucionario, quando no meio dos rochedos das arribas de Cascaes, a oito kilometros de Lisboa, se encontra assassinado mysteriosamente o empregado da alfandega, auctor do furto.

Com os documentos que lhe encontraram nas algibeiras e com as indicações fornecidas pela familia do assassinado, a policia reconstituiu facilmente o crime. O pobre empregado, vendo descoberto o furto das armas, dirigiu-se aos que o tinham impelido e suplica-lhes que o salvem. Deram-lhe dinheiro para transpôr a fronteira com promessa de o sustentarem no estrangeiro e o homem refugiou-se em Badajoz, territorio hespanhol. Mas o dinheiro falta; as promessas não são mantidas e o refugiado escreve aos que o haviam levado ao crime, suplicando socorro. Como não obtivesse resposta, ameaça-os com declarações. A Mão Negra destaca para Badajoz um dos seus agentes, que o conduz a Lisboa enganado com promessas de continuar a viagem para Africa; na primeira ocasião levam-no a Cascaes a fim de seguir ocultamente para o seu novo destino e matam-no, arrastando-o para o mar e precipitando-o do alto das ribas.
O assassino foi preso na fronteira, quando tentava refugiar-se em Hespanha, e conduzido a Lisboa, sob rigorosa escolta. Aqui, depois de alguns dias de apertados interrogatorios, apanhado em contradição, não sabendo explicar as manchas de sangue que tinha no fato, confessa finalmente que cometera o crime,—e que, além de ser antigo empregado n'um centro republicano, é membro da associação secreta a «Montanha», como os regicidas, como os auctores dos outros crimes politicos. É a existencia da Mão Negra averiguada e confessada.

Os jornaes da seita, republicanos e revolucionarios, perante esta sensacional descoberta, mantiveram a principio o maior silencio; jornaes que costumavam ocupar columnas com o mais insignificante acontecimento, evitaram, por todos os modos, referir-se a elle. Depois, desesperados por não poderem conservar-se calados, começaram a agredir violentamente e, por ultimo, a ameaçar a imprensa independente que, mostrando-se bem informada, se ocupou dos factos com uma certa largueza. E, emquanto a imprensa vermelha assim procedia, a policia vinha a saber que os revolucionarios tinham projectado fazer evadir o preso e teve a finura de o transferir do deposito de segurança para uma caserna militar, onde está de sentinella á vista.
Por outro lado, diz-se que as declarações relativas ao crime de Cascaes revelaram uma nova pista para a descoberta dos regicidas e a policia afadiga-se no intuito de descobrir e prender os membros da Mão Negra. Alguns jornaes lembram, a proposito d'este facto, a fuga precipitada de certa personagem para o estrangeiro. A Mão Negra é uma especie de comité executivo, dentro do qual se encontra todo o elemento revolucionario. Disporá o Estado de força para resistir a esta formidavel organisação que nem sequer hesita ante o crime?
A experiencia da fraqueza dos governos, que se sucederam no poder após o regicidio, não auctorisa a responder tranquilamente a esta interrogação...»

Dezembro—1909.

Dezembro—1909.

*

Dezembro—1909.

*