Reconheci o bello campo das manobras quando lá fui pela primeira vez, depois da matricula; tive saudade das flammulas sobre o gramal verde. Mesmo, porém, desmontada a alegria de encommenda das festas, era um sitio amenissimo o campo. Descoberto a todo o céu, parecia mais abundante de ar; eu lá vingava os pulmões da compressão cerrada do regimen interno.

Findos os exercicios, partia o professor Bataillard, e, guardados por dois inspectores, o Sylvino e o João Numa, ou João Numa e o velho Margal, venerando invalido hespanhol querido de todos, ou o Margal e o Conselheiro, tinhamos, os alumnos, um prazo de recreio até cair a noite.

Uma vez, ao escurecer, passeando eu calado, com o Sanches igualmente, vendo escapar o dia para além das montanhas, percebi que o meu companheiro balbuciava uma pergunta. Falou desattento, admirando o crepusculo com a testa franzida, na meia abstracção que era o seu rictus costumeiro. Estavamos a um rodeio da avenida que circumdava o gramal, opposto á cancella onde conversavam os inspectores. Os collegas jogavam a barra através da grama, ou se divertiam ao saut-de-mouton em pontos affastados. Como não apprehendi a pergunta, o Sanches repetiu. Escapou-me involuntario o riso... Abarbava-me a mais rara especie de pretendente! Eu ria com franqueza, mas abysmado. Era de uma extravagancia original aquelle Sanches! Hoje, elle é engenheiro em uma estrada de ferro do sul, um grave engenheiro...

Vendo que não nos podiamos entender, metteu entre nós o esplendor da tarde, e resolvemos o embaraço concordando ambos num parecer unanime a respeito.

Durante os dias que se seguiram, Sanches esteve frio. Tive medo de perdel-o. Deu-me as licções sem uma só das intragaveis ternuras. Exprimia-se brevemente, entre enfezado e triste. Suspeitei uma revolução de caracter e julguei ter achado o que me convinha: um amigo moderado, que me livrasse dos vexames da vida collegial dos pequenos. O caso era outro. Sanches comprehendera que a ingenuidade tinha contraminado os zelos do seu ensino. Manobrava, então, para voltar á carga.

Entretanto, deu-se o cuidado de insistir na preparação edificante.

Inventou uma analyse dos Lusiadas, livro de exame, cuja difficuldade não cessava de encarecer.

Guiou-me ao canto nono, como a uma rua suspeita. Eu gozava criminosamente o sobresalto dos inesperados. Mentor levou-me por diante das estrophes, rasgando na face nobre do poema perspectivas de bordel a fumegar alfazema. Barbaro! Havia um trajo de modestia sobre a verdade do vocabulo; elle rasgava as tunicas de alto a baixo, grosseiramente. Fazia do meneio gracil de cada verso uma brutalidade offensiva. Eu acompanhava-o sem remorso; reputava-me vagamente victima, e me dava á crueldade, submisso, adormecido na vantagem da passividade. A analyse aguilhoava as rimas; as rimas passavam, deixando a lembrança de um requebro impudente. E o ar severo do Sanches imperturbavel.

Tomava cada periodo, cada oração, altamente, com o ademan sisudo do anatomista: sujeito, verbo, complementos, orações subordinadas; depois o significado, zás! um córte de escalpello, e a phrase rolava morta, repugnante, desentranhando-se em podridões infectas.

Iniciou da mesma forma um curso pittoresco de diccionario. O diccionario é o universo. Gaba-se de esclarecimento, mas atordôa, á primeira vista, como a agitação das grandes cidades desconhecidas. Encarreirados nas paginas consideraveis, os nomes seguem estranhamente com a numerosa prole dos derivados, ou sós, petits-maîtres faceiros, os gallicismos; vaidosos dandys os de proveniencia albionica. Molestam-nos com a maneira desdenhosa, porque os não conhecemos. As significações prolongam-se interminas, entrecruzam-se em confusa rêde topographica. O inexperiente não conquista um passo na immensa capital das palavras. Sanches estava affeito. Penetrou commigo até aos ultimos albergues da metropole, até á cloaca maxima dos termos chulos. Descarnou-me em caricatura de esqueleto, a circumspecção magistral do Lexicon, como polluira a elevação parnasiana do poema.