Depois das horas do serão de estudo, quando se retiravam os estudantes para os dormitorios, fiquei com o Franco a trabalhar. Tive que suspender, ao fim de quatro paginas. Devorava-me o remorso como uma febre; aterrava-me a idéa do banho na manhã seguinte, os rapazes atirando-se á vingança perfida, a agua toldada de rubro. Impossivel fazer mais uma linha. Deixei o companheiro e fugi para o salão dos medios.

A excitação recrudesceu; eu rolava na cama sobre um tormento de lascas cortantes. Que fazer? Denunciar o Franco de madrugada? Correr, ás escuras, e abrir o escoadouro ao tanque? Prevenir aos collegas, pedindo que espalhassem? A controversia avultava-me no craneo como uma inchação de meninges. Dar-se-ia caso que Franco, possuido de arrependimento, fosse apresentar cedinho aos inspectores a delação do proprio feito? Cheguei a tentar o engodo da consciencia com a ponderação de que talvez não saltassem ao tanque muitos de uma vez, e o primeiro ferido salvaria os outros. Mas a febre vencia, com a perspectiva do sangue. Dez, vinte, trinta rapazes, á borda, gemendo, extrahindo difficilmente da carne as lascas encravadas! E eu, cumplice, que o permittira, e maior culpado, que me não cegava a razão, em summa, de justa desforra...

Ergui-me da cama, e descalço nas taboas frias, para vêr se me acalmava o mal-estar, errei pelos salões adormecidos.

Os collegas, tranquillos, na linha dos leitos, afundavam a face nas almofadas, pallejante da anemia de um repouso sem sonhos. Alguns affectavam um esboço commovedor de sorriso ao labio; alguns, a expressão desanimada dos fallecidos, bocca entre-aberta, palpebras entre-cerradas, mostrando dentro a ternura embaciada da morte. De espaço a espaço, os lençóes alvos ondeavam do hausto mais forte do peito, alliviando-se depois por um d'esses longos suspiros da adolescencia, gerados, no dormir, da vigilia inconsciente do coração. Os menores, mais crianças, conservavam uma das mãos ao peito, outra a pender da cama, guardando no abandono do descanço uma attitude ideal de vôo. Os mais velhos, contorcidos no espasmo de aspirações precoces, vergavam a cabeça e envolviam o travesseiro num enlace de caricias. O ar de fóra chegava pelas janellas abertas, fresco, temperado da exhalação nocturna das arvores; ouvia-se o grito compassado de um sapo, martellando os segundos, as horas, a pancadas de tanoeiro; outros e outros, mais longe. O gaz, frouxamente, nas arandelas de vidro fosco, bracejando dos balões de aza de mosca, dispersava-se igual sobre as camas, doçura dispersa de um olhar de mãe.

Que venturosa segurança naquelle museu de somno! E amanhã, pobres collegas! o banho, a volta, pés ensanguentados, listrando de vestigios vermelhos o caminho!

Voltei ao meu salão. Tirei da gaveta a imagem de Santa Rosalia; beijei-a com lagrimas, pedi conselho como um filho. A inquietação não passava. Atravessei ainda os dormitorios devagarinho, que me não ouvisse o Margal, accommodado num biombo a um dos angulos do salão azul. Uma crepitação dos ossos do tornozelo esteve a ponto de me comprometter. Dentro do biombo, tossiram; parei um momento; curou-se a tosse; prosegui.

Desci ao primeiro andar do edificio; entrei na capella.

A capella em trévas, de um negrume absoluto de merinó preto. A escuridão dava-lhe uma amplitude de subterraneo, mysteriosamente sentida no espaço. Não tive medo. Fui até ao altar. Tropecei no estrado. Ajoelhei-me no chão e descancei a testa nos braços a um dos angulos do estrado do oratorio. Rezei.

Na qualidade de máu estudante não sabia até ao fim nenhuma oração. Rogava por minha conta, improvisando supplicas, vehementes, angustiosas, que deviam forçar a hombro a porta de S. Pedro. Implorava de Deus directamente, sem o intermediario empenho da minha padroeira. Até que, não posso dizer como, adormeci.