Com que tristeza, ao entrar a procissão, quando o director nos mandava seguir para o collegio, com que tristeza não espiava de longe, pela porta, o interior flammejante do templo! Lá ficava a festa de Deus... e nós para o Atheneu soturno, em marcha inexoravel! Eu sacudia a cabeça com desespero; não podia soffrer a privação d'aquella alegria, gozar na alma a orgia de fogo dos altares, subir com o pensamento, degráus, degráus, ao throno scintillante, arrojando-se para cima na escalada da Gloria.
Depois d'esses enthusiasmos foi-se-me a religião escurecendo.
Era meu vizinho, na sala geral do estudo, Barreto, um personagem duplo, que representava, nas horas de recreio, a folgança em pessoa e tinha momentos de meditação trevosa com esgares de terror e falava da morte, da outra vida, rezava muito, tinha figas de pau, bentinhos, medalhazinhas em cordões, que saltavam fóra do seio ao brinquedo.
Iniciara-me Sanches no Mal; Barreto instruiu-me na Punição. Abria a bocca e mostrava uma caldeira do inferno; as palavras eram chammas; ao calor d'aquellas praticas, as culpas ardiam como sardinhas em frege.
Barreto andara num seminario rigoroso, regimen de nitro para congelar as ardencias da idade. Era magro, testa de Alexandre Herculano, beiços finos, olhos pretos, refulgentes, saídos, physionomia geral de caveira em pelle reseccada de mumia. No queixo viam-se-lhe dous fios unicos de barba, em caracol, cada um para a sua banda.
Só elle, talvez, conheceu-me as preoccupações beatas. Senhor do meu fraco, pôz-se a informar dos pavores da fé com a emphase satisfeita de um cicerone. Recordo-me de um assumpto: a communhão sacrilega! A proposito, Barreto me deu um livro a ler, um livro cruel, que descrevia cousas dignas de Moloch; crianças directamente justiçadas pela celeste colera, uma d'ellas que, por haver commungado sem confissão prévia, illudindo ao sacerdote, fôra apanhada pela roupa entre dous cylindros de aço d'uma machina e reduzida a pasta, acabando impenitente, maldita, sem tempo para um ai Jesus... Era-me incrivel que de uma simples hostia podesse a thaumaturgia da crendice obter tantos effeitos de terror.
Barreto commentava reforçando. Mettia medo acceso em iras santas de prégador, demonstrando quão longe ainda estavam os castigos da Providencia, na terra, dos supplicios da eternidade. Descrevia o inferno como se tivesse visto. Rubida caverna, dragões verde-negros, côr de limo, serpentes de ferro em brasa enroscando os condemnados, demonios fulvos revolvendo tachos de asphalto em fusão, outros espiritos caudatos levando a chuço magotes, para os tachos, de inconsolaveis reprobos.
Li a Nova Floresta, de Bernardes. O reverendissimo autor veio retocar a obra do Barreto, com as suas narrativas de illuminado terrifico.
Comecei a achar a religião de insupportavel melancolia. Morte certa, hora incerta, inferno para sempre? juizo rigoroso; nada mais negro!
Era cedo demais, para que eu podesse pesar philosophicamente a revelação; encontrei, todavia, embaraço invencivel no ritual das ceremonias. Eu que, nos melhores dias, não conseguira formular litteralmente uma só prece do catecismo, esbarrei definitivamente na prescripção fastidiosa do preceito. Ir á missa, muito bem; mas o resto e ainda mais a dependencia dos senhores ministros do culto... Em duas palavras: a sacristia e o inferno, provaveis escandalos e horrores inevitaveis, desgostaram-me de tudo. Demais, eu tinha por vezes tentado dar boa conta, estudando um pouco e rezando muitissimo, com um pequeno jejum ainda por cima; ao dia seguinte, nota má! Era um descredito para o favor divino. Que custava á summa Omnipotencia modificar em licção sabida uma ignorancia soffrivel, como transmutara em fartura sem conta uma miseria de cinco pães?