Felizmente o barulho da entrada para o Atheneu de um moço celebre veio modificar a odiosa voga.
Acabava de matricular-se Nearcho da Fonseca, pernambucano de illustre estirpe.
Apresentou-se com o pae, vulto politico em galarim no tempo. Era um mancebo de dezesete annos, rosto cavado, cabellos abundantes, de talento não commum, olhar vivo, moroso de importancia, nariz adunco, avançado, secco, quasi translucido como um nariz de vidro. Franzino como a infancia desvalida, magro como uma prelecção de osteologia, surprehendeu-nos, entre outras, uma recommendação a seu respeito, pelo proprio director ás barbas do pae:—Nearcho da Fonseca era um grande gymnasta!
Talentoso que fosse, concebiamos, se por nada mais, ao menos pela cabelleira... Mas um gymnasta aquelle espectro da necessidade!
A juventude, entretanto, é a eterna esperança: nós esperamos por uma exhibição comprobante.
Abalou-se a tribu dos acrobatas, dos athletas; toda a rapaziada de brio, o Luiz á frente, que localisava na protuberancia nodosa do biceps o pundonor supremo da creatura, preparou na mais vasta admiração um aposento consideravel para acolher o confrade.
Formados trezentos, á tarde, diante dos apparelhos, foi em movimento de avidez que ouvimos Bataillard com o cavalheirismo que o distinguia, convidar a exhibir-se o grande Nearcho.
Estava presente o director; estava presente o respeitavel progenitor de Blondin. O Atheneu olhava.
Nearcho deixou a fórma, rompendo a marcha com o pé esquerdo, segundo a regra, mãos á ilharga, sério como um bispo, e encaminhou-se para o trapezio com o passo medido das emas, imperturbavel como quem sabe profundamente a technica do marchar. Perto do apparelho, sempre de mãos á cinta, volta a volver! virou-se para o collegio, teso, e quebrou para nós um duro salamalek, conservando por segundos a effracção angular das figurinhas delineadas, representando a lavoura, na cantaria historica do Egypto.
Assumptavamos anciosos.