«Quem protesta contra o sebo da tyrannia é burro!» redarguiu ao apartista com a pachorra temivel dos velhos insolentes.

—Burro, não! clamou o outro, empallidecendo sob a vergasta da injuria, nervoso, perturbado pela attenção da sala inteira que o encarava. Burro, não! taes expressões são indignas de V. Exª., um senador e um velho!...

—Burro, sim!... repetia o outro vagarosamente, com um arreganho enfastiado de insulto. Burro, sim!...

Aristarcho conservava-se á presidencia, na pasmaceira de páu dos idolos affrontados. O salão enorme, alumnos e convidados, tumultuava em vagalhões, fragmentado em partidos oppostos, uns pelo senador e pela anarchia, outros pelo advogado e pela ordem publica. Muitos gesticulavam de pé; havia estudantes, gritando em cima dos bancos. Os insultos voavam como pelouros; os protestos rangiam como escudos feridos; havia mãos pelo ar que pediam espadas.

Aproveitando-se do escarcéu, o advogado ousara arremessar uns desaforos ao senador. O outro, sem ouvir bem, ia replicando com a impertinencia do seu estribilho: «Burro, sim», ate que, impaciente, pôz remate á polemica com as cinco letras da energia popular que Waterloo fez heroicas, Victor Hugo fez épicas e Zola fez classicas.

Sob o peso da conclusão, Zé Lobo cedeu.

Aristarcho achou que era tempo de funccionar a presidencia e sacudiu sobre o tumulto o badalo da ordem.

O orador na tribuna, erecto e calmo, promontorio sobre a tormenta, esperava que o alvoroço chegasse a termo. Apenas viu arrefecer o furor dos improperios:

«Corramos um véu sobre o scenario desolador,» continuou; «venha em soccorro a esperança de um renascimento.» E por ahi habilidosamente conduzindo a oração, acabou por um quadro de futuro, armado em aurora sobre a tribuna, portico de luz, jorrando um deslumbramento que extasiou os ouvintes com o encanto dos vaticinios felizes, levando o sopro da viração matutina as nuvens do desanimo esfumadas antes sobre o panorama.

Tiveram a palavra, ainda, dous estudantes, que moeram uma quantidade profusa de phrases communs a proposito de letras e litteratos. O filho do director, o republicanozinho que conhecem, tinha no bolso dez tiras, dez brulotes de eloquencia incendiaria, que resolveu suffocar depois do escandalo collossal do sebo.