A informação de reportagem de cada sentido não desperta, portanto, no homem a actividade cerebral dos impulsos de preferencia, de repugnancia, simplesmente, como nos outros animaes; mas amplia, pela psychologia inteira dos phenomenos espirituaes, a variedade infinita das comparações, permutadas de mil modos na unidade do espirito como as peças de um jogo maravilhoso sobre o mesmo panno.

Duas são as representações elementares do agradavel realisado: nutrição e amor.

Os animaes inferiores, não favorecidos por um razoavel coefficiente de progresso, produzem secularmente a condição da inferioridade: olham, tocam, farejam, ouvem, não provam com demasiado escrupulo e devoram grosseiramente para depois amar, como sempre fizeram.

O homem, por desejo de nutrição e de amor, produziu a evolução historica da humanidade.

A nutrição reclamou a caçada facil—inventaram-se as armas; o amor pediu um abrigo, ergueram-se as cabanas. A digestão tranquilla e a perfilhação sem sobresaltos precisaram de protecção contra os elementos, contra os monstros, contra os malfeitores,—os homens tacitamente se contractaram para o seguro mutuo, pela força maior da união: nasceu a sociedade, nasceu a linguagem, nasceu a primeira paz e a primeira contemplação. E os pastores viram pela vez primeira que havia no céu a estrella Vesper, expandida e pallida como o suspiro.

Mas era preciso que fossem leitos de amor as crinas de ouro e fogo dos leões, e que houvesse marfim, metaes luzentes, pedraria, sobre a alvura lactea da carne amada, que não bastavam beijos para vestir; era preciso deliciar a gustação, com o requinte das estranhezas. E os homens levaram a conquista aos reis da floresta, ao ventre do solo; foram colher aos ares os incolas mais raros, emplumados de luz como creações canoras do sol; e foram buscar ás ondas os mais esquivos viajores do abysmo, singrando celeres, phantasticos, na sombra azul, cm cauda um reflexo vago de escamas,—para morder-lhes á vida.

Urgiu ainda a fome, urgiu mais o amor e veio a guerra, a violencia, a invasão. Curvaram-se os captivos ao latego vencedor e foram abatidas as escravas sob a garrada lascivia sanguinaria, faminta de membros avulsos, olhos sem alma, labios sem palavra, formas sem vontade, pretexto miseravel de espasmos. Formaram-se os odios de raça, as oppressões de classe, as corrupções vingadoras e demolidoras.

Mas a scisma evoluiu tambem, aquella scisma poetica da pastoral primeva que buscara os astros no céu para adereço dos idyllios. O fundo tranquillo e obscuro das almas, aonde não chega o tumultuar de vagas da superficie, inflammou-se de phosphorescencias; geraram-se as aureolas dos deuses, coalharam-se os discos das glorias olympicas; as religiões nasceram.

Mas era preciso que fosse palpavel o espectro da divindade: as rochas descascaram-se em estatuas, os metaes se fizeram carne e houve templos, houve cultos, houve leis, vieram prophetas e pontifices ambiciosos. E esta evolução da scisma que fôra amante, feita instrumento da tyrannia, deu logar ás praticas do terror, aos apostolados do morticinio.