O Malheiro, com o vozeirão grave de contrabaixo, começou a infernisar-me por epigrammas. Queria incommodar o Alves mortificando-me, julgando que me queixasse. Eu devorava as affrontas do marmanjo sem descobrir o meio de tirar correcta desforra. Barbalho lembrou-se de tomar as dôres. Depois de incitar o Malheiro contra mim, incitou o Bento contra o Malheiro. Procurou-o mysteriosamente e informou: «o Malheiro não passa pelo Sergio que não pergunte quando é o casamento... é preciso casar... Ainda hoje pediu convite para as bodas. O Sergio está desesperado.»
O furor do Alves não se descreve, furor poderoso dos calados. Uma onda de apoplexia ruborisou-lhe as faces. Por unico movimento de indignação contrahiu os dedos, como estrangulando. Procurou o Malheiro e com a voz talvez alterada, mas sem odio, fez intimação: «amanhã é a sessão de encerramento; em meio da festa saímos ambos; preciso falar-lhe das bodas.»
Malheiro percebeu: era o sonhado encontro!
Apenas desceu da tribuna o presidente effectivo do Gremio, os adversarios deixaram as cadeiras. Barbalho saiu pouco depois. Notei o movimento e adivinhei mais ou menos.
Quando saímos do pavilhão, finda a solemnidade, um criado entregou-me um enveloppe, uma carta do Alves, a lapis. «Estou preso; antes que te digam que por alguma indignidade, previno: por ter dado uma licção ao Malheiro.»
Minutos depois, Franco, muito satisfeito, contava a todos: «tinham luctado no jardim o Malheiro e o Alves; que briga dos dous brutos!» Alves saíra ferido com um golpe no braço, acreditam que de navalha; Malheiro estava no dormitorio. Avisados pelo Alves, os criados tinham ido buscal-o sem sentidos, ao fundo de um bosquete no parque. «Sem sentidos! garantia o Franco; que pandega! que sopapos! ora o Malheiro malhado!»
Soube-se que Barbalho espreitara o combate através dos arbustos. Antes de o vêr acabado, correra activo, e concentrando a vesgueira numa só attenção de intrigante, preparara as cousas de modo que, ao voltar do jardim, Bento Alves foi surprehendido por uma ordem de prisão do director.
Não denunciar nunca é preceito sagrado de lealdade no collegio. Os contendores recusaram-se a explicações. Bento Alves negou o braço a exame e a curativo; Malheiro, em pannos de sal, fingindo-se muito prostrado, offerecia o mais impenetravel silencio ás indagações de Aristarcho e protestava esborrachar as ventas a quem caísse na asneira de insinuar o bedelho no que não era da sua conta.
«Ora o malhado!...» resmungavam os collegas; mas tratavam de esquecer o caso.
Por minha parte, entreguei-me de coração ao desespero das damas romanceiras, montando guarda de suspiros á janella gradeada de um carcere onde se deixava deter o gentil cavalheiro, para o fim unico de propôr assumpto ás trovas e aos trovadores medievos.