Guardei, na imaginação infantil, a gravura d'esta apotheose com o atordoamento offuscado, mais ou menos de um sujeito partindo á meia-noite de qualquer theatro, onde, em magica beata, Deus Padre pessoalmente se houvesse prestado a concorrer para a grandeza do ultimo quadro. Conheci-o solemne na primeira festa, jovial na segunda; conheci-o mais tarde em mil situações, de mil modos; mas o retrato que me ficou para sempre do meu grande director, foi aquelle—o bello bigode branco, o queixo barbeado, o olhar perdido nas trevas, photographia estatica, na ventura de um raio electrico.
É facil conceber a attracção que me chamava para aquelle mundo tão altamente interessante, no conceito das minhas impressões. Avaliem o prazer que tive, quando me disse meu pae que eu ia ser apresentado ao director do Atheneu e á matricula. O movimento não era mais a vaidade, antes o legitimo instincto da responsabilidade altiva; era uma consequencia apaixonada da seducção do espectaculo, o arroubo de solidariedade que me parecia prender á communhão fraternal da escola. Honrado engano, esse ardor franco por uma empreza ideal de energia e de dedicação premeditada confusamente, no calculo pobre de uma experiencia de dez annos.
O director recebeu-nos em sua residencia, com manifestações ultra de affecto. Fez-se captivante, paternal; abriu-nos amostras dos melhores padrões do seu espirito, evidenciou as facturas do seu coração. O genero era bom, sem duvida nenhuma; que apezar do paletot de seda e do calçado raso com que se nos apresentava, apezar da bondosa familiaridade com que declinava até nós, nem um segundo o destitui da altitude de divinisação em que o meu criterio embasbacado o acceitara.
Verdade é que não era facil reconhecer alli, tangivel e em carne, uma entidade outr'ora da mythologia das minhas primeiras concepções anthropomorphicas; logo após Nosso Senhor, o qual eu imaginara velho, feiissimo, barbudo, impertinente, corcunda, ralhando por trovões, carbonisando meninos com o corisco. Eu aprendera a ler pelos livros elementares de Aristarcho, e o suppunha velho como o primeiro, porém rapado, de cara chupada, pedagogica, oculos apocalypticos, carapuça negra de borla, fanhoso, omnipotente e máu, com uma das mãos para traz escondendo a palmatoria e doutrinando á humanidade o b-a-bá.
As impressões recentes derogavam o meu Aristarcho; mas a hyperbole essencial do primitivo transmittia-se ao successor por um mysterio de hereditariedade renitente. Dava-me gosto então a peleja renhida das duas imagens e aquella complicação immediata do paletot de seda e do sapato raso, fazendo alliança com Aristarcho II contra Aristarcho I. no reino da phantasia. Nisto afagaram-me a cabeça. Era Elle! Estremeci.
«Como se chama o amiguinho?» perguntou-me o director.
—Sergio... dei o nome todo, baixando os olhos e sem esquecer o «seu criado» da estricta cortezia.
—Pois, meu caro Sr. Sergio, o amigo ha de ter a bondade de ir ao cabelleireiro deitar fóra estes cachinhos...
Eu tinha ainda os cabellos compridos, por um capricho amoroso de rainha mãe. O conselho era visivelmente salgado de censura. O director, explicando a meu pae, accrescentou com o rizinho nasal que sabia fazer: «Sim, senhor, os meninos bonitos não provam bem no meu collegio...»