O melindroso assumpto fôra inventado pela gentileza de um antigo mestre. Preparou-se modelo; um alumno copiou com exito; e, depois, não houve desenhista amavel que não entendesse zeladamente dever ensaiar-se na respeitavel veronica. Santo Deus! que ventas arranjavam ao pobre Aristarcho! Era até um desaforo! Que olhos de blepharite! que boccas de beiços pretos! que calumnia de bigodes! que invenção de expressões aparvalhadas para o digno rosto do nobre educador!
Não obstante, Aristarcho sentia-se lisonjeado pela intenção. Parecia-lhe ter na face a cocegazinha subtil do crayon passando, brincando na ruga molle da palpebra, dos pés de gallinha, contornando a concha da orelha, calcando a commissura dos labios, entrevista na franja dos fios brancos, definindo a severa mandibula barbeada, subindo pelas dobras obliquas da pelle ao nariz, varejando a pituitaria, extorquindo um espirro agradavel e desopilante.
Por isso eram acatados os desenhistas da veronica.
Os retratos todos, bons ou máus, eram alojados indistinctamente nas molduras de recommendação. Passada a festa, Aristarcho tomava ao quadro o desenho e levava para casa. Tinha-os já ás resmas. Ás vezes, em momentos de spleen, profundo spleen de grandes homens, desarrumava a pilha; forrava de retratos, mesas, cadeiras, pavimento. E vinha-lhe um extase de vaidade. Quantas gerações de discipulos lhe haviam passado pela cara! Quantos affagos de bajulação á effigie de um homem eminente! Cada papel d'aquelles era um pedaço de ovação, um naco de apotheose.
E todas aquellas cousas mal feitas animavam-se e olhavam brilhantemente. «Vê, Aristarcho, diziam em côro, vê; nós que aqui estamos, nós somos tu, e nós te applaudimos!» E Aristarcho, como ninguem na terra, gozava a delicia inaudita, elle incomparavel, unico capaz de bem se comprehender e de bem se admirar—de vêr-se applaudido em chusma por alter-egos, glorificado por uma multidão de si-mesmos. Primus inter pares.
Todos, elle proprio, todos acclamando-o.
[VIII]
No anno seguinte, o Atheneu revelou-se-me noutro aspecto. Conhecera-o interessante, com as seducções do que é novo, com as projecções obscuras de perspectiva, desafiando curiosidade e receio; conhecera-o insipido e banal como os mysterios resolvidos, caiado de tédio; conhecia-o agora intoleravel como um carcere, murado de desejos e privações.
Desenvolvido á força e habilitado no torvelinho moral do internato, aproveitara os dous mezes de feriado para espreitar a animação da vida exterior. A sala, a sociedade, os negocios da praça publica, que na infancia são como contactos de nevoeiros resvalando pela imaginação, que nos despertam com um estardalhaço de pesadelo, que fogem, que somem-se, deixando-nos readormecidos no esquecimento da idade, ao tempo em que preferimos da soirée os bons bocados, das toilettes os laços de côres rutilas, ignorando que ha talvez na vida alguma cousa mais assucar que o assucar, e que o toque macio póde uma vez levar vantagem á coloração fulgurante, quando invejamos das posições sociaes modestamente o garbo de Phaetonte nos carros de praça ou a bravura rubente de umas calças de grande uniforme, sem saber que as ambições vão mais alto e que ha commendadores; o movimento do grande mundo não me apparecia mais como um theatro de sombras. Comecei a penetrar a realidade exterior como palpava a verdade da existencia no collegio. Desesperava-me então vêr-me duplamente algemado á contingencia do ser irremissivelmente pequeno ainda e collegial. Collegial, quasi calceta! marcado com um numero, escravo dos limites da casa e do despotismo da administração.
Havia a escassa compensação dos passeios. Uniformisava-se de branco o collegio como para as festas de gymnastica, com os gorros de cadarço, e saíamos a dous, a quatro de fundo, tambores, clarins á frente.