De todos os pontos do jardim começaram a chegar magotes pressurosos de uniformes brancos. Os vigilantes, energicos, regularisavam a occupação dos logares.

Ao correr da mesa, fechou-se o bloqueio ameaçador de dentaduras.

No centro alinhavam-se as peças, sem conta, frias, sem môlho, appetitosas, entretanto, da côr tostada e do aroma succulento.

Os garfos agitavam-se inimigos, amolavam-se os trinchantes nas mãos dos copeiros...

Obrigados a uma sobranceria stoica de philosophos, depois da provação definitiva do forno, nem os perús, nem os leitões, nem os timidos frangos mostravam aperceber-se da situação arriscada.

Os frangos, de pernas para traz, sobre o dorso, cabeça escondida na aza, pareciam dormir sonhando o calembour das pennas perdidas; os redondos bacoros, encouraçados na bella côr de torresmo, serviam-se dos olhos de azeitona para não mais vêr as seducções mentidas da existencia, empenhados em ensinar aos homens como se leva a cabo o supplicio culinario dos palitos, com a aggravante azeda dos limões em rodella; os perús, soberbos até á ultima e menos philosophicos, prescindiam francamente da cabeça, orgulhosos apenas da vastidão do peito, enfunando a vaidade cheia do papo, hypertrophia de farofa.

Guarnecendo os assados, perfilavam-se as garrafas pretas desarrolhadas, conglobavam-se montes de maçãs, peras, laranjas, apoiadas ás nacionalissimas bananas, como um traço de nativismo. Os pudins, as marmeladas, as compotas enchiam os vãos da toalha, com um zelo apertado de mediador plastico. Mesmo sem metter em conta as postas de roastbeef com que contribuirá Aristarcho, percebe-se que era de truz o jantar.

Quando os rapazes sentaram-se, em bancos vindos do Atheneu de proposito, e um gesto do director ordenou o assalto, as taboas das mesas gemeram. Nada pôde a severidade dos vigilantes contra a selvageria da boa vontade. A licença da alegria exorbitou em canibalismo.

Aves inteiras saltavam das travessas; os leitões, á unha, hesitavam entre dous reclamos igualmente energicos, dos dous lados da mesa. Os criados fugiram. Aristarcho, passando, sorria do espectaculo como um domador poderoso que relaxa. As garrafas, de fundo para cima, entornavam rios de embriaguez para os copos, excedendo-se pela toalha em sangueira. Moderação! moderação! clamavam os inspectores, afundando a bocca em aterros de farofa dignos do Sr. Revy. Alguns rapazes declamavam saudes, erguendo, em vez de taça, uma perna de porco. Á extremidade da ultima das mesas um pequeno apanhara um trombone e applicava-se, muito serio, a encher-lhe o tubo de carne assada. Maurilio descobriu um repolho recheiado e devorava-o ás gargalhadas, affirmando que era munição para os dias de gala. Cerqueira, ratazana, curvado, redobrado, sobre o prato, comia como um restaurante, comia, comia, comia como as sarnas, como um cancro. Sanches, meio embriagado, beijava os vizinhos, caindo, com os beiços em tromba. Ribas, dyspeptico, era o unico retrahido; suspirava de longe, anjo que era, diante dos reprovados excessos da bacchanal.

Em meio do tumulto ebrifestante, ouviram-se palmas. Á cabeceira da mesa principal, apresentavam-se de pé Aristarcho e o empertigadinho e cuprico professor Venancio. Era a poesia! Venancio de Lemos costumava improvisar, mais ou menos préviamente, estrophes analogas nas festas campestres...