Falava da anthracita e da hulha, o lucto feito pedra, lembrança tragica de muitas éras orgulhosas do planeta, monumento da prehistoria das arvores, negro, que a industria dos homens devasta. Descrevia a escadaria dos terrenos, onde existe a pegada impressa do genio das metamorphoses, subindo, desde a vegetação florestal dos fetos até ao homem quaternario. Falava-nos de Cuvier e da procissão dos monstros resurgidos, caminho dos museus, o megatherio potente, tardo, balançando as passadas, sujo, descamando saibro e as concreções seccas do lodo diluviano, solemne, conscio da carga de seculos que transporia.

Vinha depois a alluvião moderna das zonas formadas, o solo fecundo, lavradio. E o mestre passava a descrever a vida na humidade, na semente, a evolução da floresta, o gozo universal da chlorophylla na luz. Falava-nos do cerne, o generoso madeiro, o tronco, que sangra em Dante, que sustenta nos mares o commercio, Neptuno inglez do tridente de ouro. Falava-nos da poesia ignorada da vegetação marinha nos abysmos, e da giesta, isolada nas altas neves, flôr do ermo, a degradada eterna do inaccessivel.

Depois, a historia dos brutos, os grandes bramidos de macho nas regiões virgens, os dramas do egoismo na selva, do egoismo rude da força que póde, cégo, formidavel, sagrado como a fatalidade. E corria inteira a serie das classificações, mostrando a vida no infinitesimo, a microbia invisivel, omnipotencia do numero, sociedade inconsciente da monada, solidaria para a morte e para as reconstrucções impereciveis da terra.

O homem finalmente—ventre, coração e cerebro, politica, poemas, criterio: a alma, universo de universo, imagem de Deus, reflector immenso, anthropocentrico, do dia, das côres, que o sol inflamma, que o sol não sente.

Falava uma vez sobre educação.

Discutiu a questão do internado. Divergia do parecer vulgar, que o condemna.

É uma organisação imperfeita, aprendizagem de Corrupção, occasião de contacto com individuos de toda origem? O mestre é a tyrannia, a injustiça, o terror? o merecimento não tem cotação, cobrejam as linhas sinuosas da indignidade, approva-se a espionagem, a adulação, a humilhação, campeia a intriga, a maledicencia, a calumnia, opprimem os predilectos do favoritismo, opprimem os maiores, os mais fortes, abundam as seducções perversas, triumpham as audacias dos nullos? a reclusão exacerba as tendencias ingenitas?

Tanto melhor: é a escola da sociedade.

Illustrar o espirito é pouco; temperar o caracter é tudo. É preciso que chegue um dia a desillusão do carinho domestico. Toda a vantagem em que se realise o mais cedo.

A educação não faz almas: exercita-as. E o exercicio moral não vem das bellas palavras de virtude, mas do attrito com as circumstancias.