Era pelos fins de novembro, ao approximar da noite. Soprava rijo o vento das bandas do sul e as nuvens acastelladas e escuras corriam como cavallo á desfilada. Principiavam a cair grossas gottas d’agua, e ao longe já rugia a tempestade. Como é vulgar no inverno, no campo, quasi que não houvera crepusculo da tarde. Apenas se escondera o sol e já a escuridão baixava sobre os campos. No sitio onde começa a acção da historia que se vae lêr, não havia noticia de povoado: era a meio de uma azinhaga, que se contorcia por entre terras cobertas de restevas, e tristes como a nudez mal vestida de farrapos.

Joaquim dos Santos tinha mettido o cavallo a trote para fugir á trovoada proxima e ás trévas eminentes; emquanto debalde procurava orientar-se por meio dos olivaes.

Joaquim dos Santos fôra um dos mais endiabrados rapazes d’aquelles lugares. Deitára fama de si pelas proezas que fizera, e o seu nome não era bem fallado n’aquellas visinhanças, como um dos maiores extravagantes d’este mundo.

Seu pae, que tinha alguns bens e que estimava devéras os seus dois unicos filhos, Joaquim e Raymundo, tratou de lhes dar educação decente, mettendo-os no mais acreditado collegio de Lisboa.

Mas, emquanto Raymundo estudava com a melhor vontade, Joaquim fazia em agua a cabeça dos professores, e peiorava de dia para dia. Não podendo aturar, o director mandou-o para casa do pae, declarando lhe, que assim como não teria duvida de ensinar de graça a Raymundo, visto o seu bom porte e applicação; por dinheiro algum d’este mundo se resolveria a supportar o irmão nem mais um dia.

Foi grande tristeza em casa de José dos Santos. As esperanças todas que depuzera em seu filho mais velho desappareciam-lhe de repente. E o velho que já pensava em o mandar a Coimbra!

Joaquim, pela sua parte, declarou-se em guerra aberta com a lettra redonda. Não nascera para doutor, nem se achava com sabedoria para lettradices. Queria amanhar terras e ser lavrador como seu pae. Seu irmão, que parecia um menino Jesus de freiras, que se desse a semelhantes pieguices: elle era um homem, tinha pulso para guiar a rabiça de um arado, e pernas para se segurar n’um cavallo.

José dos Santos só contava um defeito, ser estremoso pelos filhos como ninguem. Concordou com a vontade do Joaquim, e metteu-o no trabalho debaixo da sua direcção.

Mas, nem mesmo nos primeiros dias, o novo lavrador tomou gosto áquelle modo de vida. Aborrecia-se do trabalho e, mal que podia, furtava-lhe o corpo para ir procurar a companhia dos peiores rapazes da terra. Encontravam-no mais na taberna do que na eira, mais no jogo de bolla do que no pomar, e mais nas patuscadas do que na lavoira.

Ao passo que se ia entregando a não fazer nada, iam-lhe medrando os defeitos e engordando os vicios. Tinha fama de valentão, e tão mau se havia feito, que o proprio pae se temia d’elle.