—Contarei, apesar de não me sentir muito para contos. Entretanto servir-lhes-ha de lição para deixarem em paz, quem já deu contas de si.

Callaram-se todos e o narrador começou por estas palavras:

Ha de haver dez annos a esta parte, que succedeu o caso, que lhes vou contar. Defronte da egreja estava n’esse tempo uma loja de barbeiro, afreguezada como poucas, e concorrida por toda a gente dos arredores. Era o pasmatorio do logar e o covil da maledicencia: o mestre Ignacio sabia do seu officio como poucos, e cortava nas vidas alheias, como nos cabellos e barbas dos freguezes.

Tambem a loja estava sempre cheia: uns que lhe acudiam á obra, acceiada na verdade; outros, que para ali iam dar á taramella e saber o que se passava pelos sitios.

Nem uns nem outros deixavam de ser servidos: os primeiros saiam com a pelle, que nem um setim; os outros levavam medida rasa de novidades e não poucas vezes acogulada de mentiras.

De todos os que por ali iam, um freguez havia a quem o mestre não gostava muito de vêr na loja. Ninguem o diria, porém, ao vêr as barretadas do velho Ignacio e as mesurinhas com que o acatava. Havia de ter que vêr, que o não fizesse! Se era o sr. padre prior, o padre mais santo, que tenho conhecido e a melhor alma que Deus tem deitado a este mundo de Christo.

E sabem porque o mestre não engraçava com o padre prior, e até mesmo ardia por vêl-o pelas costas? Era porque, o unico talvez dos freguezes todos, não fazia a sua perna á má lingua, nem deixava deitar-lhe muito os braços de fóra, quando estava presente.

—Cala-te lá, homem, lhe dizia muitas vezes, sabes por ventura quantos annos de trabalho leva uma reputação a crear, quantos cuidados e lidas custa o ser honrado, para assim deitares essa obra toda por terra sem tir-te nem guar-te? Se fosses fazendeiro e se gastasses cabedal e vida a fazer a tua propriedade e a amanhar as terras; se todos os dias regando-as com o suor do teu rosto, e ageitando-as com o teu trabalho, conseguisses crear as arvores de um pomarsito, por bem pequeno que fosse, gostavas, que um alma damnada te deitasse fogo á casa; ou que te succedesse dar o mal nas searas e o peco no pomar? Pois olha, pomar, casa, e terras são coisas todas, que, uma vez perdidas, se podem tornar a ganhar; mas o credito e a fama, esses é que não.

O mestre barbeiro, que se temia do bom pobre ficava sem saber da sua freguezia, e este então, que não era de reserva, nem homem, que gostasse de pôr as uvas em pisa a outro por muito tempo, tornava-lhe logo mudando de modo de fallar.—Ora vamos, sô mestre, não desmanche creditos dos outros, pois que não póde vêr entrar o mal por sua casa; que a fama de má lingua ninguem lh’a dá nem lh’a tira, e em quanto a obra, ninguem lh’a desfaz, por que não a tem feita.